Eleições em Dados: Como identificar uma fraude eleitoral?

A legitimidade das eleições brasileiras vem sendo atacada nos últimos tempos. Em 2014, o presidenciável Aécio Neves solicitou ao TSE uma auditoria dos votos.

Recentemente, Jair Bolsonaro tem dito que se perder a eleição será por fraude da urna eletrônica. Segundo ele, “a grande preocupação agora não é perder no voto, é perder na fraude. Essa possibilidade de fraude no segundo turno, talvez até no primeiro, é concreta.”

A desconfiança em relação à urna não parece estar restrita a certas elites políticas. Segundo a pesquisa “A Cara da Democracia”, a maioria dos cidadãos diz não acreditar que a contagem de votos seja feita de maneira honesta.

No entanto, a descrença não é baseada em qualquer evidência de favorecimento para um ou outro candidato. Além de todas as análises técnicas apontarem que a urna eletrônica é confiável, uma análise matemática simples dos votos também mostra que não há evidências de fraude nos resultados eleitorais.

valor economico 05.10

Créditos: Valor Econômico

A ideia para esta análise, inspirada em um artigo publicado por Bernd Beber e Alexandra Scacco na revista acadêmica americana, “Political Analysis”, em 2012, é de que por que somos ruins em criar aleatoriedade, resultados fraudulentos por intervenção nos resultados das eleições são perceptíveis em larga escala.

Isto é, se eu lhe pedisse para falar um número qualquer entre um a 100, você provavelmente não diria um, 99 ou 100. Entretanto, um sorteio perfeito há de dar a mesma chance para todos os números possíveis. O mesmo acontece com o último dígito dos votos de candidatos competitivos a presidente. Em uma eleição sem interferência humana, o último dígito do número de votos em cada urna deve variar de maneira uniforme entre 0 e 9. Se um ser humano for criar os números, porém, é provável que um algarismo ocorra com maior frequência que outros.

Por exemplo, é possível que a pessoa crie muitos números que terminem em 0, como foi o caso da eleição presidencial de 2003 na Nigéria, e de 2007 em Senegal. Talvez a pessoa queira justamente evitar números terminados em 0 e acabe sistematicamente diminuindo a frequência deste algarismo.

Analisando os votos para os três principais candidatos da corrida presidencial de 2014 em cada uma das quase 430 mil urnas, a distribuição beira a uniformidade esperada, com 10% para cada algarismo.

O trabalho de Beber e Scacco também sugere outras duas maneiras de perceber a interferência. Primeiro, tendemos a subestimar a repetição de um mesmo algarismo (por exemplo, 1-1 e 4-4). Segundo, utilizamos pares de algarismos sequenciais mais do que o acaso criaria (por exemplo, 2-3 e 7-8).

A repetição de um mesmo algarismo em um sorteio deve acontecer em 10% das vezes, já que a chance do segundo algarismo ser igual ao primeiro é sempre a mesma.

No caso das eleições de 2014, a frequência de algarismos repetidos nos dois últimos dígitos é 9,9996% nos votos de Dilma no 1º turno e 10,045% para Aécio. Ou seja, são praticamente perfeitos.

Já a existência de pares com algarismos consecutivos deve acontecer 20% das vezes em um sorteio, já que há duas entre dez possibilidades de que o segundo algarismo seja vizinho do primeiro (considerando 9 e 0 como vizinhos). Outra vez, os números reais da eleição de 2014 são equivalentes ao que esperaríamos: números consecutivos aconteceram 19,82% entre os votos de Dilma e 20,02% entre os votos de Aécio.

Os resultados para o segundo turno são equivalentes. Isto indica que não há sinal de interferência nas eleições de 2014.

É importante reconhecer que estes testes detectam apenas um tipo de fraude: a produção de números na contagem de votos de números grandes. Com algoritmos inversos, pode-se mudar os votos de outros modos. Porém, para que tenham impacto substantivo na eleição presidencial, outros tipos de alterações nos resultados teriam de ser feitas em quase todas as urnas e de forma que não alertassem outros mecanismos de checagem.

Portanto, fazer alegações sobre fraude eleitoral sem evidências passa a ser nada mais que um desfavor para a legitimidade da democracia brasileira.

Texto originalmente publicado no site Valor Econômico.

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Guilherme Russo é doutor em ciência política pela Vanderbilt University e pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepesp/FGV)

Este artigo é de responsabilidade do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getulio Vargas (Cepesp/FGV) faz parte da parceria “Eleição em Dados”, será publicado terça-feira em versão digital no “Valor PRO” e na quarta-feira em versão impressa pelo “Valor Econômico”

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Categorias:Cepesp na Mídia

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