Fenômeno Bolsonaro e o conceito de desengajamento moral

Por que eleitores conseguem relevar aspectos ou declarações desumanizadoras dos candidatos que escolhem?

Há consenso de que esta corrida presidencial não é das mais convencionais. Um dos fatores que contribuem: o líder nas pesquisas de intenção de voto, Jair Bolsonaro, ter um histórico de declarações polêmicas sobre mulheres, homossexuais, quilombolas, ditadura militar, tortura e violência política.

Por um lado, as posições do candidato Bolsonaro contribuíram para uma rejeição de aproximadamente 40% da população, mas, por outro, colaboraram para a formação de um grupo grande de eleitores e, consequentemente, chances reais de ocupar o cargo mais alto do país.

Apesar de muitos analistas terem discutido o “fenômeno Bolsonaro”, pouco tem sido dito ou debatido sobre por que eleitores conseguem relevar aspectos ou declarações desumanizadoras dos candidatos que escolhem.

O intuito desse texto é contribuir para este debate, explicando um pouco sobre o conceito de desengajamento moral e descrevendo os resultados de uma pesquisa feita sobre a concordância de jovens a respeito de declarações de políticos sobre corrupção e violência.

bolsonaro e deputada.jota

Deputado Jair Bolsonaro discute com a deputada Maria do Rosário na Câmara dos Deputados. Créditos: Marcelo Camargo/Agência Brasil

No dia a dia, as pessoas procuram se comportar de acordo com um padrão moral que evite condenação pessoal e/ou social. Em termos mais claros, geralmente evitamos ser contraditórios com o que consideramos certo. Entretanto, com alguma frequência, indivíduos praticam condutas que vão contra seus referenciais morais pessoais ou sociais.

Dois exemplos simples ajudam a entender o desengajamento moral: podemos cometer um ato aparentemente “pequeno” como contar uma mentirinha que vai contra o nosso padrão moral, ou realizar atos socialmente mais graves como xingar alguém por características pessoais ou por preferências políticas diferentes das nossas.

Quando nos comportamos desta maneira, é comum a sensação de “se sentir mal”, isto é, vivenciarmos uma autocondenação por ter feito algo inapropriado. Mas em vez de nos autorepreendermos, frequentemente criamos justificativas que tornam a conduta incoerente em aceitável ou menos condenável. Esse processo cognitivo que evita a autocondenação é chamado de “desengajamento moral”.

O psicólogo Albert Bandura, professor emérito da Universidade de Stanford (EUA), desenvolveu um conjunto de ideias sobre como este processo de justificação acontece. Em seu novo livro, “Moral Disengagement: How People do Harm and Live with Themselves” (Bandura, 2016, ainda não traduzido para o português), Bandura descreve oito mecanismos pelos quais justificamos comportamentos desengajados moralmente.

Nos primeiros 3 mecanismos, justificação moral, comparação vantajosa e linguagem eufemística, buscamos tornar um comportamento condenável em aceitável ao descrevê-lo de uma forma que o torna menos reprovável ou como uma ação necessária para o bem de outros.

Por exemplo, quando dizemos que uma ação que vai contra um valor moral tinha de ser feita por um bem maior ou porque é menos reprovável que outra ação, estamos usando os mecanismos de justificação moral e comparação vantajosa, respectivamente. E quando usamos termos mais suaves para descrever uma ação condenável, estamos utilizando o mecanismo de linguagem eufemística.

Pelo quarto mecanismo, justificamos um comportamento imoral ao argumentar que a conduta não teve os efeitos prejudiciais alegados, procurando negar, distorcer, diminuir ou contestar as consequências. Por exemplo, quando se diz que a agressão verbal não provoca danos psicológicos.

Com o quinto e sexto mecanismo, o desengajamento moral acontece ao focar na responsabilidade. Procura-se diminuir, negar ou obscurecer a responsabilidade do agente da ação prejudicial, afirmando que não se pode culpar a pessoa pelo ato praticado se ela foi pressionada a agir forçada por outras pessoas ou circunstâncias superiores (deslocamento de responsabilidade), ou quando se argumenta que não se pode condenar uma pessoa se todos praticam o mesmo tipo de conduta (difusão de responsabilidade).

Por último, pelos mecanismos de desumanização e atribuição de culpa, justifica-se uma ação ao argumentar que a vítima é ou destituída de características humanas ou responsável pelo próprio sofrimento em decorrência do seu próprio comportamento.

Assim, o desengajamento moral funciona para o convencimento de que padrões morais não se aplicam àquela situação ou contexto. E embora possa parecer que comportamentos desengajados moralmente sejam ações realizadas por poucas pessoas, é preciso destacar que comportamentos deste tipo ocorrem frequentemente no cotidiano.

Logo, é natural que pessoas sejam testemunhas de práticas que vão contra os padrões morais compartilhados socialmente e, assim, tenham que decidir como responder a tais comportamentos, como quando alguém joga lixo na rua, viola uma regra de trânsito ou faz comentários inapropriados sobre alguma pessoa.

Em outras palavras, indivíduos se deparam com atitudes e discursos que vão contra suas referências morais, cabendo assim responder com algum grau de concordância ou desacordo.

No caso da política, por exemplo, com frequência se escuta declarações sobre corrupção e violência que violam referenciais morais como “rouba mas faz”, “roubou menos que o outro”, “tem que matar bandido” ou “corrupto deve ser fuzilado.” Nesses casos, é como se os valores de não roubar e não matar fossem deixados de lado ao argumentar que outros políticos são piores ou que a violência nesses casos é justificada para atender uma necessidade maior, como a proteção das “pessoas de bem”.

A necessidade de avaliar declarações que buscam justificar ações de corrupção e violência tem se destacado nessa eleição, especialmente por parte das candidaturas do ex-presidente Lula e do capitão da reserva, Jair Bolsonaro. O julgamento pessoal das declarações, no entanto, pode ser afetado pela contextualização da situação, permitindo assim que se aceite posicionamentos ou comportamentos que violam princípios morais pessoal e socialmente valorizados.

Pensando justamente nesse processo de contextualização, conduzimos um estudo para avaliar como a contextualização do discurso impacta o nível de concordância de jovens com declarações de políticos sobre corrupção e violência.

Contamos com a participação de 487 jovens de escolas públicas e particulares da região metropolitana de Campinas, e pedimos que eles indicassem o quanto concordavam com seis declarações feitas por políticos cujas ideias explicitavam mecanismos de desengajamento moral. Entretanto, parte dos participantes puderam ler frases que contextualizavam a afirmação antissocial, enquanto a outra parte apenas leu a afirmação contrária a padrões morais (antissocial).

Por exemplo, enquanto alguns jovens apenas puderam ler a afirmativa “vagabundo merece ser morto pela polícia”, outros leram a declaração que circunstanciava a declaração moral “76 mortos pela polícia é pouco, por mim, quanto mais vagabundo for para o saco melhor. Vai ser menos cara enchendo o saco, dando trabalho e matando pai de família. Vagabundo merece ser morto pela polícia.”

Pelo lado da corrupção, parte dos jovens leu uma frase apenas dizendo que “Ninguém deve ser punido por ações ilegais, se todos fazem o mesmo”, enquanto a outra parte leu “O partido, durante 2003 e 2004, usou recursos não contabilizados para quitar dívidas das nossas campanhas. Todos nós sabemos como é feita uma campanha eleitoral. Ninguém deve ser punido por ações ilegais, se todos fazem o mesmo.”.

A ideia, portanto, era avaliar o quanto a parte que busca contextualizar a violação de um princípio moral aumenta o nível de concordância dos jovens com as afirmações investigadas. Nossa hipótese era de que a contextualização sempre aumentaria a concordância com as declarações, mas encontramos um resultado, de certa forma, inesperado.

Depois de uma análise estatística rigorosa, observamos que o percentual de jovens que discordava totalmente das afirmações de comportamentos violentos foi menor quando comparado àqueles que não leram a parte que circunstanciava a afirmativa desengajada. Por exemplo, 51% dos jovens que só leram a frase final disseram que discordavam totalmente de que “vagabundo merece ser morto pela polícia”. Já entre o grupo que também leu a parte anterior, a contextualização, 44% disseram que discordava totalmente.

No entanto, para as declarações que remetiam a casos de corrupção, o resultado é justamente o inverso: conhecer mais sobre o caso de corrupção aumentou o nível de discordância com a declaração. Isto é, 70% discordaram totalmente da ideia de que “ninguém deve ser punido por ações ilegais, se todos fazem o mesmo” entre aqueles que apenas leram esta afirmação. Já entre aqueles que também leram a contextualização da frase, o percentual de discordância foi de 80%.

Em outras palavras, enquanto a contextualização dos discursos moralmente desengajados que apoiam atos de violência aumentou o nível de aceitação, a contextualização dos discursos que promoviam atos de corrupção diminuiu o nível de aceitação. Estes resultados indicam que os julgamentos de práticas reprováveis sofrem alteração de importância de acordo não apenas com a circunstância moral, mas também com o domínio da ação, no caso, violência ou corrupção.

Este achado tem implicações importantes para o contexto atual brasileiro, pois indica que tentativas de contextualização de práticas ilegais de corrupção, seja relatando o papel do sistema, a alta frequência destes atos, ou até que são importantes para o andamento dos processos políticos, tendem a aumentar o nível de discordância com estes atos.

Em compensação, a contextualização sobre práticas de violência tende a aumentar o nível de concordância. As considerações e resultados aqui discutidos revelam diferenças na aceitação de pensamentos desengajados, ainda que ajudem a entender melhor alguns cenários atuais.

Vejamos como essa consideração ilustra o perfil e campanha de Jair Bolsonaro. Repetidamente, o candidato faz declarações que remetem à violência. Em uma entrevista no rádio em junho de 2016, disse que “o erro da ditadura foi torturar, e não matar.”. Há algumas semanas disse, durante a campanha, que “vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”.

Apesar de contradizer o princípio de não violência, as declarações de Bolsonaro são bem aceitas por muitos. Isto não quer dizer que os apoiadores são necessariamente a favor de violência como uma ideia a ser aplicada sempre, mas pensando no conceito de desengajamento moral, as pessoas passam a aceitar essa retórica porque julgam que o contexto justifica tais discursos e ações.

Ou seja, os padrões morais são relevados nesses casos porque o objetivo de paz justifica a violência e/ou porque a responsabilidade é do indivíduo ou grupo que merece a violência. De certa forma, isto tem levado a percepções de que o candidato é “bom em segurança”.

Analisar o cenário político atual na perspectiva do desengajamento moral oferece um olhar diferenciado ao fenômeno para além da polarização política dos pronunciamentos. A principal implicação que esse texto quer destacar é que, como sociedade, temos que conversar sobre o processo pelo qual surge a concordância com discursos que remetem a condutas que violam princípios morais e sociais que existem para garantir direitos de todos.

Se fizermos isso, teremos melhores chances de reduzir ondas de pensamentos desengajados moralmente que se voltam para a valoração de práticas prejudiciais à sociedade.

Texto originalmente publicado no site Jota.

****

GUILHERME RUSSO – cientista político e pesquisador do Cepesp-FGV
ROBERTA GURGEL AZZI – Professora aposentada da Unicamp e Diretora da TSC- Estudos e Pesquisas.
ELIAS LIMA JÚNIOR – Doutorando pela UNESP / Rio Claro

Anúncios


Categorias:Cepesp na Mídia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: