Marcos Fernandes: globalização e combate à corrupção

Temos que analisar o fenômeno da corrupção tanto do ponto de vista da demanda quanto da oferta. Em boa parte dos países da América Latina, há uma certa demanda por parte das elites políticas e elites burocráticas por propina. Por outro lado, a Odebrecht adotou uma espécie de divisão de conquistas de mercado que replica o que antigamente a esquerda definia como um “imperialismo multinacional”. A estratégia da empresa foi de vencer, vencer e vencer licitações a qualquer custo. Então você tem os dois lados: você tem o lado de uma elite corrupta, que nós sabemos muito bem que os danos que isso causa, principalmente em países em desenvolvimento, e do outro lado você tem p ofertante de propina, que no caso é a empresa, que faz de tudo em função dos seus objetivos estratégicos. A grande questão a se discutir, para nós, como país, é se essa política que foi adotada no período recente – mas vem, na verdade, de antes dos últimos governos petistas -, é adequada do ponto de vista a médio ou longo prazo, para a imagem do Brasil e para a imagem da empresa. Me parece que não.

A investigação da Operação Lava Jato pode mudar esse estado de coisas de uma maneira significativa. O combate à corrupção foi um dos benefícios da globalização. É uma ironia que agora a gente tem que defender a globalização. Antigamente, a esquerda era a grande crítica da globalização e ela trouxe tantos benefícios, como a diminuição da desigualdade entre países, por exemplo, mas trouxe também mudanças institucionais, que ocorreram devido aos interesses dos países mais desenvolvidos, principalmente os Estados Unidos. Uma dessas mudanças foi a obrigatoriedade, por acordos internacionais, de países assinarem leis anticorrupção, que resultam, hoje, na necessidade política de compliance, que sejam para valer e não simplesmente pro forma.

Pela primeira vez na história do Brasil, nós temos um sistema de investigação e um sistema de punição que são críveis. Se você parar e pensar e pegar as histórias dos grandes escândalos de corrupção no Brasil, não tem um como esse. Há a discussão em torno de um certo jacobinismo judiciário. Há talvez um pouco de mão pesada. Mas, no frigir dos ovos, situações excepcionais exigem soluções excepcionais. Nós temos que tomar cuidados com os sistemas de checks and balances, para evitar abuso de poder das punições da Lava Jato, das investigações. Mas é uma situação nova. E situações novas exigem soluções novas. As pessoas pouco entendem que esses procuradores e o juiz Sérgio Moro se formaram nos Estados Unidos. Tirando de lado teorias conspiratórias, a mentalidade que esses indivíduos têm e o conhecimento técnico que adquiriram vão no sentido de combater lavagem de dinheiro. Eles aprenderam técnicas de investigação e de interrogatório que permitem desvendar esse tipo de esquema. Então a Lava Jato é muito nova. Mas seus resultados são exemplares.

(Este texto foi extraído da contribuição de Marcos Fernandes ao programa “Sem Fronteiras”, exibido  pela Globo News em 16-Fevereiro-2017.)

 

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Categorias:Cepesp na Mídia

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