Marcos Fernandes: por que há corrupção desde os anos quarenta?

Dois delatores da Lava Jato referiram-se à década de 1940 como marco para o início do esquema de repasse ilegal de dinheiro de empreiteiras a políticos no Brasil. O primeiro a fazer essa afirmação foi Sérgio Machado, ex-deputado federal (1991-1994), ex-senador (1995-2003) e ex-presidente da Transpetro (2003-2014), uma subsidiária da Petrobras.
Em sua delação, Machado apontou o pagamento de propina a pelo menos 25 políticos de seis partidos diferentes. Ele cumpre pena de dois anos e três meses em prisão domiciliar, em Fortaleza. No depoimento, no mês de junho de 2016, ele disse o seguinte: “O esquema ilícito de financiamento de campanha e de enriquecimento ilícito desvendado pela Lava Jato ocorre desde 1946”.

Além de Machado, Emílio Odebrecht, presidente do Conselho de Administração da construtora Odebrecht, disse que o pagamento de caixa dois a políticos “sempre existiu” no Brasil. Emílio, que também é delator da Lava Jato, depôs em março de 2017 como testemunha no caso que envolve o filho Marcelo, que está preso desde junho de 2015, condenado a 19 anos de prisão. Ele disse o seguinte: “Sempre existiu [caixa dois]. Desde a minha época, da época do meu pai e também de Marcelo [Odebrecht]”.

A história da Odebrecht O pai de Emílio é Norberto Odebrecht, que fundou a empresa em 1944. Ele ganhou seus primeiros contratos no interior da Bahia e na capital, Salvador, para construir um estaleiro, uma ponte de atracação e a sede do Círculo Operário da Bahia, na capital baiana, em 1945. A empresa Odebrecht fez a primeira hidrelétrica de sua história em 1952, também na Bahia e, no ano seguinte, realizou a primeira obra para a Petrobras: o acampamento do projeto Oleoduto Catu-Candeias, para o transporte do óleo extraído no então novo campo de Catu da Refinaria de Mataripe.

O Nexo apresentou a Marcos Fernandes Gonçalves da Silva, especialista em economia política da FGV, a seguinte pergunta: Por que os anos 1940 são uma referência quando o assunto é financiamento de campanha por empreiteiras?

Marcos Fernandes: “O período representativo é pós-Segunda Guerra Mundial (1945). A partir daí, o que você observa é o investimento em infraestrutura no Brasil. Esse foi um investimento importante que impulsionou o surgimento daquelas que viriam a ser as grandes construtoras brasileiras. Entre 1930 e 1980, o Brasil foi o país que mais cresceu no mundo. E de 1950 e 1980 é o período de maior crescimento dentro desse pico. Foi um crescimento elevadíssimo e concentrado. O Brasil não tinha nada e passou a ter. Não tinha rodovia ligando as duas principais cidades do país. O que havia era ferrovia para ligar cidades cafeeiras.
O movimento se acentuou com o Plano de Metas, de Juscelino Kubitschek [presidente do Brasil de 1956 a 1961, que, com o Plano, prometia fazer o país crescer “50 anos em 5”], principalmente com a construção de Brasília [inaugurada em abril de 1960] e com a loucura de Juscelino pelo carro.
Depois, tem o primeiro Plano Nacional do Desenvolvimento, no governo do general Castelo Branco [1964-1967], de reformas microeconômicas, e o segundo Plano Nacional do Desenvolvimento, com Ernesto Geisel [1974-979], com investimento pesado em infraestrutura. Aí, as grandes construtoras se destacam e crescem. Há um boom das empreiteiras. Mesmo sendo ditadura, havia corrupção, pois isso é algo que não depende só de financiamento de campanha. Tanto políticos da Arena [partido da ditadura] quando do MDB [que pedia a volta da democracia] recebiam por fora. Não tinha campanha presidencial, mas a campanha para governador foi liberada em 1982. Tinha prefeito, deputado, tinha político. Tudo se intensifica com a reabertura democrática em 1985.”

 

(Texto originalmente publicado pelo Nexo Jornal em 14-Março-2017)

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Categorias:Cepesp na Mídia

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