Por que a política de agroecologia de Haddad foi premiada?

O economista Ciro Biderman, professor da FGV-SP e pesquisador do Cepesp, chefiou a empresa São Paulo Negócios, da prefeitura, quando foi implementada uma inovadora política de agroecologia. Esta política venceu, há algumas semanas, o prêmio “Mayors Challenge”, organizado pela Bloomberg Philantrophies. Ciro revela, em conversa exclusiva com o blog do Cepesp, como a política foi elaborada e implementada. Abaixo estão os principais trechos de seu depoimento.

***

O projeto “Ligue os Pontos” foi a última coisa que fiz na prefeitura. Queríamos aumentar a oferta de orgânicos produzida por pequenos fazendeiros em SP e com isso proteger a parte dos mananciais da zona sul que ainda não foi ocupada.

O diagnóstico anterior é que o erro da lei de proteção dos mananciais foi proibir tudo. Nenhum uso do solo é possível! Você não pode colocar residências lá. Então esse terreno perdeu o valor formal e você supervalorizou o uso informal. O uso informal destruiu a represa. É o favelamento. Esse processo ocorreu de modo “violento”, mais de 1 milhao de pessoas moram lá. Isso começou nos anos oitenta e foi o que acabou com a represa. Não há como fiscalizar. E isso vira a única oportunidade de uso dessa terra. Nosso motto é: use it or lose it.

Há uma área na zona sul, do tamanho de Manhattan, que é agriculturável. 25% dessa área já tem pequenos agricultores. São cerca de 400 agriculturas. As fazendas têm, em média, 11 hectares. Para você ser considerado de grande porte, são 300 hectares. Desses 400, só uns 40 produzem organicamente. Se a produção for orgânica, não afeto o manancial! Então há um apelo enorme para conseguir migrar todos os 400 para produzir deste jeito.

Por que não há muita produção de orgânico? Hoje em dia, o orgânico produzido dessa maneira, em pequena escala, chega muito caro para o consumidor final porque não tem nenhuma economia de escala e de escopo operando. Há um enorme problema logístico. O custo de levar uma cesta de alimentos do produtor para o consumidor era R$ 60 por cesta. Isso inviabilizava. O próprio produtor colocava tudo em uma picape e saia distribuindo aos fins de semana para as famílias. Totalmente ineficiente.

Um elemento inovador importante nesse projeto é a plataforma que estamos desenvolvendo, uma plataforma de tecnologia, que vai ser totalmente aberta. As empresas de logística, por exemplo, conectam o produtor com o dono do caminhãozinho. Essas empresas, como a Logbee, vao poder entrar na plataforma e oferecer esse produto.

Fizemos um primeiro piloto com uma startup de logística, a Logbee, que se dispôs a fazer de graça. Caiu para R$ 11,25 por cesta! Fizemos em setembro e outubro de 2016. Então o problema de logística foi melhorado. Tem toda a cadeia, “ligue-os-pontos”. Há lugares dispostos a comprar orgânico, mas não têm como lavar o alface, por exemplo. O sujeito que quer comprar não quer nem pode montar uma estrutura só para isso, mas outra empresa pode fazer. E o sistema da prefeitura permite que esses dois sejam conectados.

A plataforma é uma central que vai ficar no Mobile Lab da prefeitura, ligado à Secretaria de Transportes. Pode ter meia dúzia de empresas tipo a Logbee e todas podem entrar no mercado. A prefeitura não irá gastar dinheiro público para fazer a conexão entre produtor e consumidor, mas vou ter uma plataforma que permite que esses dois grupos de atores tenham como entrar nesse mercado sem barreiras. O sujeito que lava e embala o alface pode oferecer seus serviços diretamente na plataforma.

O ganho de logística vai reduzir preços e aumentar a demanda ascendente por produtos orgânicos. Hoje em dia, se você quer comprar orgânico, alguém tem que ligar ou mandar email para fazer um pedido de cesta. Se você produz organicamente, você tem que respeitar a sazonalidade. Se o consumidor quiser montar a cesta, ele vai poder fazer isso pelo aplicativo!

(A Folha de S. Paulo também cobriu, aqui, este prêmio.)

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Categorias:Cepesp na Mídia

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