Sérgio Praça (FGV-RJ): o impeachment de Temer é possível

Até que ponto a saída do ministro Geddel Vieira Lima e a nova crise que se instalou em Brasília vão impactar o futuro do governo Temer? Para o cientista político Sérgio Praça, se as gravações confirmarem o que o ex-ministro Marcelo Calero disse à Polícia Federal, o processo pode, sim,terminar em impeachment.

Professor e pesquisador da Escola de Ciências Sociais e do Centro de Política e Economia do Setor Público, ambos da Fundação Getúlio Vargas, Praça é tido como um dos analistas políticos com maior rigor acadêmico em sua avaliação de cenário no país. Sobre a semana de alta octanagem, ele concedeu a seguinte entrevista a EXAME Hoje.

O escândalo dessa semana surgiu como algo menor, mas tomou uma proporção preocupante para o governo, principalmente por envolver diretamente o presidente. Michel Temer errou?

Geddel deveria ter sido afastado imediatamente. Tanto Temer como o Geddel diminuíram o fato em conversas com interlocutores. Se isso acontecesse em 2012, talvez não causasse problemas, as pessoas talvez deixassem passar. Mas, agora, qualquer tentativa de usar a estrutura pública para fins pessoais é extremamente malvista e não é algo considerado aceitável. O governo Temer assumiu o país achando que, se a economia fosse bem, as pessoas colocariam a corrupção em segundo plano. Mas a economia não avança, e a Lava-Jato não para. Apesar de o escândalo ser considerado pequeno comparado a outras denúncias, incluindo a própria Lava-Jato, o impacto negativo para o presidente Temer é devastador.

O fato de o presidente ter sido gravado é um agravante?

Se realmente existir e vier à tona, a gravação vai prejudicar muito o governo. Principalmente se Temer de fato tiver dito que a Advocacia-Geral da União teria uma solução. Pode ser prematuro dizer isso, mas nessa situação, eu vejo o impeachment como inevitável. Nesse contexto, o governo perderia a articulação política para qualquer projeto que esteja no Congresso. A reforma da Previdência já era. A PEC do teto dos gastos passa porque já está quase aprovada, mas ainda assim inspira cuidado. O contexto do país está caótico, e é exatamente o contrário do que a população quer.

O ex-ministro Geddel era um dos principais nomes da articulação política de Temer, que já vinha sendo prejudicada pelo cenário econômico. Como a situação política do governo fica agora?

Quando ele nomeou esse ministério, os mais próximos dele eram Jucá, Geddel, Moreira Franco e Eliseu Padilha. Desses, Jucá e Geddel já eram. O Jucá assumiu a liderança do governo no Congresso, o que já é, em si, um fato no mínimo bizarro, um absurdo, considerando a gravidade do que ele falou com o Sérgio Machado [disse que era preciso “mudar o governo para estancar essa sangria” da Lava-Jato]. Quanto ao Moreira Franco, pesam as declarações do Eduardo Cunha, que disse que, da cúpula do governo, ele é o mais frágil [Cunha disse que Franco é responsável por irregularidades na administração do Fundo de Investimento do FGTS, administrado pela Caixa]. Tem ainda o Henrique Eduardo Alves, que era muito próximo ao núcleo do governo e caiu logo no primeiro mês [citado na delação premiada de Sérgio Machado, acusado de receber 1,5 milhão de reais]. O presidente Michel Temer defende o Geddel, mas ele não tem outra opção, porque eles são muito próximos. No final das contas, sobraram o presidente e o Eliseu Padilha. É frustrante para o governo que isso aconteça, principalmente para a articulação política com o Congresso.

As novas denúncias, incluindo as delações da Odebrecht que estão em vias de ser assinadas, podem levar a população de volta às ruas?

É muito plausível que sim. Há um risco para o Planalto que tanto a esquerda como a direita defendam o fim do governo Temer. Se o Movimento Brasil Livre, que defendeu o impeachment de Dilma Rousseff, não defender a saída do presidente agora, se defender o governo, perderá definitivamente a representatividade política. Domingo há protestos marcados, e pode ser um teste importante.

O presidente, em seu discurso de posse, disse que o país precisava se unir…Talvez ele finalmente una o país, mas contra si mesmo. Já é um governo com pouco apoio popular e pode se esfacelar completamente agora. Se isso não acontecer, o presidente pode sobreviver isolado politicamente, o que não é bom para o país. Esse futuro ainda é um pouco imprevisível. O PSDB está numa posição muito ruim porque saiu com seus principais nomes criticando o Marcelo Calero e defendendo o governo. É uma posição completamente contrária ao anseio popular. O PSDB faz isso agora porque está com medo de ficar exposto, já que apoiou a entrada do Temer na presidência. O melhor negócio para o PSDB, à princípio, seria que o governo se mantivesse como uma travessia até 2018, mas se a pressão popular crescer, isso pode não acontecer. A gente sabe que no momento que o PSDB retirar seu apoio, seria a pá de cal no governo. Hoje, não é provável, mas pode vir a acontecer.

Além do escândalo envolvendo Geddel, a semana foi cheia de polêmicas em Brasília, com diversas pautas de proteção do Congresso. Como isso afeta o governo?

Esses projetos respingam mal em toda a classe política e também chegam ao governo, obviamente. Se o Congresso aprovar a anistia ao caixa 2 e o Temer não vetar, seria como um suicídio coletivo. Absolver coletivamente os políticos seria péssimo para o futuro do país. Causaria comoção popular, porque as pessoas estão mais intolerantes à corrupção governamental. E os parlamentares têm medo da população.

(Entrevista para Gian Kojikovski, do aplicativo “Exame Hoje” da Revista Exame, publicada em 25-Novembro-2016)

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Categorias:Cepesp na Mídia

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