Cláudio Couto: o problema dos “falsos políticos”

O descontentamento com a política é um fenômeno brasileiro?

Esse descontentamento é um fenômeno mais geral, que pode ser notado em diversos aspectos, como a baixa aprovação que têm as principais instituições do sistema representativo, como os partidos, os parlamentos e os políticos propriamente ditos. Diversas pesquisas de opinião mundo afora atestam isso, como as do Latinobarómetro na América Latina, ou do GFK Group, na Europa. O baixo comparecimento em eleições também ocorre em diversos lugares, assim como a opção cada vez mais frequente por políticos, partidos e movimentos antisistema. Nesse sentido, podemos dizer que o que realmente ocorre é uma rejeição à política institucional tradicional, mais do que à política pura e simplesmente. Isso já ocorre há décadas, mas se intensificou nesta nossa era, de redes sociais e aluvião de informações.

Muitos candidatos, nas últimas eleições, trouxeram a marca do ‘não político’. Por que eles fizeram sucesso?

Esses candidatos fizeram sucesso justamente pela rejeição aos políticos e à política tradicional. Na verdade, essa coisa é velha e disseminada. O (Donald) Trump aparece assim nos EUA, Beppe Grillo na Itália ou mesmo Chávez e Fujimori, em contexto latino-americano de alguns anos atrás. Antônio Ermírio de Moraes, quando foi candidato a governador (1986) lançou mão do mesmo expediente. Uns aparecem como empresários bem-sucedidos, que substituiriam a política pela gestão, outros aparecem como salvadores militares da pátria, outros como iconoclastas. Há alternativas para todos os gostos. A questão é que propõem uma fórmula impossível: fazer política sem política. Afinal, governar é fazer política; requer habilidades políticas, escolhas políticas e estratégias políticas.

É contraditório um candidato se declarar ‘não político’ ao entrar em uma disputa política, uma eleição?

É completamente contraditório, pois ao se tornar candidato esse indivíduo já fez política. Aliás, ao ganhar a posição de candidato dentro de um partido já fez política no seu grau mais especializado, ainda mais se o fez por meio de uma disputa. Ser candidato e dizer que não é político é pior do que dizer que é padre, mas não tem religião. Afinal, um falso padre pode mesmo não ter religião, mas terá de fingir que tem e terá de trabalhar com ela, lidando com a fé alheia. Um “falso político” não tem como escapar à política, já que ela é definidora de tudo o que ele faz e fará, assim como tem consequências necessariamente políticas. A política define o ambiente em que o suposto “não-político” atuará; e ninguém consegue escapar ao ambiente em que vive.

O distanciamento da sociedade da política é perigoso?

Ele é perigoso porque é, primeiramente, um autoengano. Alguém até pode fechar os olhos e fingir que o ambiente em que está mergulhado não existe, achando que dessa forma esse ambiente desaparecerá. Isso, contudo, é pura ilusão. Negar a política é isso. E, numa democracia, negar a política significa uma série de possíveis riscos. Primeiro, o de transferir a outros a responsabilidade por escolhas que competem a cada um. Isto é, se eu renunciar a participar da política, outros farão por mim e para mim. Segundo, negar a política significa tentar submete-la à técnica ou à moral. Novamente sucumbe-se a ilusões, pois tanto a técnica como a moral requerem certas escolhas e relativizações que não têm como ser resolvidas senão politicamente. Para ilustrar a questão: eu posso ter duas alternativas técnicas, X e Y, para resolver um certo problema social; se optar por X, os grupos sociais A e B serão favorecidos, enquanto os grupos C e D serão prejudicados; já a alternativa técnica Y produz o resultado inverso. Qual dessas alternativas técnicas deverá ser seguida? Ora, a escolha é política e, claro, também moral. Trata-se do que é possível fazer em termos das relações de poder (e, como diz o ditado, a política é a arte do possível frente a relações de poder), bem como de escolher entre o que é mais justo fazer – priorizar o ganho de uns, em vez dos outros.

A sociedade, neste modelo de representação, precisa de partidos políticos? Qual a importância de se ter legendas?

É possível um sistema de representação sem partidos formais, embora não me pareça que seria necessariamente melhor. Sem partidos os eleitores terão menos parâmetros para fazer suas escolhas, pois os partidos – por piores que sejam – nos fornecem alguma informação sobre o que um indivíduo é ou pensa, ao estilo “me diga com quem andas que te direi quem és”. Aliás, foi isto que fez o PT pagar um preço altíssimo nestas últimas eleições municipais, em função não só do desastre econômico gerado pelo governo Dilma, como também em função dos seguidos escândalos em que seus membros estiveram envolvidos. Como o PT tem uma marca partidária mais forte do que outros, foi mais fácil para o eleitor identificá-lo e puni-lo. Mas o que é verdade para o PT não é menos verdade para PSDB, PMDB, PTB etc.: o partido reúne um grupo de pessoas com posições mais ou menos convergentes, embora possam convergir numas coisas mais, noutras menos. Tirar isso é deixar que o eleitor tente adivinhar como cada indivíduo candidato irá se portar. Ademais, se acabássemos com os partidos oficiais, provavelmente eles existiriam informalmente.

O Brasil tem 35 partidos políticos. É muito?

Parece-me um número demasiado quando consideramos o total de legendas com assento nas casas legislativas e com acesso aos recursos institucionais de campanha e sustento das organizações partidárias. Ademais, voltando ao problema da informação, um número tão alto de legendas confunde o eleitor, que precisa processar informação demais. Eu costumo comparar isso àquele cardápio de pizzaria com 85 tipos diferentes de pizza, cada um deles com uma breve descrição dos ingredientes. O cliente, depois de ler os quinze primeiros, cansa e pede uma margherita, ou então uma calabresa, que ele já conhecia antes. O grande número de partidos produz um efeito similar no eleitor. E, nas casas legislativas, dificulta a coordenação e eleva o custo da formação de coalizões. Mesmo o elevado número de ministérios que tivermos e ainda temos no Brasil se deve à necessidade de acomodar todos os membros da coalizão.

Os Estados Unidos têm dois grandes partidos que são os mais fortes e sempre disputam as eleições presidenciais e outros pequenos. Há um número de partidos que seria ideal para o Brasil?

Não me parece que apenas dois partidos seja também uma solução melhor, já que temos uma diversidade social e política que ultrapassa essa simplificação. Quando olhamos para outras democracias multipartidárias não encontramos uma fragmentação partidária como a que temos aqui. Se tomarmos esses países como parâmetro, podemos supor que algo entre seis e sete partidos seria mais do que suficiente para dar conta da diversidade brasileira. De resto, esse grande número apenas cria a oportunidade para que os partidos operem como empresas políticas de seus controladores. Isso pode ser bom para eles, mas não é bom para a sociedade nem para a democracia. Mecanismos como uma cláusula de desempenho seriam úteis para estimular fusões e reduzir a fragmentação.

(Entrevista feita por Julia Affonso e originalmente publicada em “O Estado de S. Paulo” em 23-Outubro-2016)

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Categorias:Cepesp na Mídia

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