Alexandre Schneider: como resolver os problemas de São Paulo?

O paulistano anda olhando a cidade de esguelha. Sete em cada dez habitantes mudariam de São Paulo se pudessem, segundo pesquisa Ibope/Rede Nossa São Paulo, o pior resultado desde 2009, quando o levantamento foi realizado pela primeira vez. Já segundo o Datafolha, o número de cidadãos satisfeitos em morar na cidade caiu quase pela metade entre abril de 2013 e julho deste ano.

Mais do que medir esse mau humor do paulistano, este ano, em que haverá eleições municipais, é ideal para que se discuta a cidade, se aprenda com os erros cometidos e se desenhem novos caminhos.

Nosso bem mais valioso, o tempo, se esvai nos deslocamentos diários. São quase duas horas por dia em média entre a casa e o trabalho. A expansão do metrô é lenta e cara. Mesmo após a implantação de 400 km de faixas, a velocidade média dos ônibus é a mesma desde 2012 no pico da manhã e subiu apenas 2 km/h no pico da tarde, conforme dados da Prefeitura.

Infelizmente, a atual gestão não foi capaz de fazer a licitação do sistema nos últimos três anos e meio. Também não conseguiu entregar mais que 35 dos 135 quilômetros contratados na administração anterior – duas medidas capazes de contribuir para melhorar a qualidade e a velocidade dos ônibus da cidade.

A próxima gestão tem uma grande oportunidade à sua frente: deixar de lado as estratégias que já não deram certo e fazer uma parceria público-privada para a licitação da implantação e operação de um sistema de BRT, infraestrutura de corredores com a área de ultrapassagem, cobrança antecipada e embarque rápido.

Na área social é preciso integrar as políticas existentes, desde a primeira infância. O programa Mãe Paulistana pode ser a plataforma para essa integração. Já se garantem o acompanhamento pré-natal para as gestantes e consultas aos bebês. Seria importante que a criança já saísse da maternidade com o Cartão SUS e que esse fosse o número único de acesso a todos os serviços da Prefeitura.

Ainda na maternidade a mãe poderia optar por um pré-cadastro em creche, o que ajudaria a dimensionar os investimentos futuros e organizar o acesso a esse direito da criança. E fazer o mesmo nos programas de apoio às famílias da área de assistência social. As políticas podem continuar sendo implementadas por secretarias setoriais, mas devem chegar ao cidadão de forma integrada, de acordo com sua necessidade individual.

São Paulo precisa de algum investimento na ampliação de sua rede de escolas, especialmente na educação infantil. Mas o principal desafio continua sendo melhorar a qualidade da educação. De um lado, é preciso retornar ao básico: voltar a investir no currículo, na formação de professores e num sistema de avaliação externa, políticas abandonadas nos últimos quatro anos. E estabelecer um programa de apoio às escolas das regiões mais vulneráveis da cidade, voltado para a melhoria de aprendizagem dos alunos. De outro, é necessário investir na ampliação do acesso dos alunos ao conhecimento que está espraiado na cidade, articulando no território o que existe de oferta disponível. Aqui, mais uma vez, a palavra é integração, no caso, entre as escolas e os equipamentos públicos e privados existentes no Município.

Na questão ambiental talvez tenhamos tido o maior retrocesso nos últimos anos. O projeto de ampliação dos parques da cidade foi abandonado. Com isso, terrenos anteriormente destinados a parques na periferia foram ocupados, alguns deles em área de manancial, o que é inexplicável numa cidade que “importa água” e passou por uma severa crise hídrica recentemente.

É preciso retomar o programa de parques públicos, garantindo lazer na periferia e proteção ao meio ambiente. Não precisamos apenas seguir o exemplo de Nova York, que na gestão Bloomberg comprou terras para proteger seus mananciais. Curitiba, a apenas 40 minutos de voo de São Paulo, triplicou as áreas verdes nos últimos três anos e meio. Com parques na periferia da cidade.

A próxima gestão tem de atuar de forma a demonstrar que não há uma contraposição entre o direito à moradia e o meio ambiente. É compreensível a ansiedade dos movimentos de moradia diante de uma gestão que cumpriu menos de 20% do que prometeu nessa área. Mas não é aceitando a ocupação de áreas de manancial que resolveremos o problema.

Devemos insistir no adensamento da região central da cidade, onde existem imóveis ociosos, escolas públicas com poucos alunos e uma enorme concentração de serviços públicos que são utilizados majoritariamente por cidadãos que residem em bairros distantes. Trata-se de estudar por que as iniciativas dos últimos 20 anos de ocupação do centro não deram certo e desenhar um novo programa que combine iniciativas públicas e privadas na sua implementação. Já temos instrumentos legais para isso.

Esses desafios e tantos outros da cidade, contudo, não serão enfrentados com o atual modelo de gestão, centralizado e setorial. Não se trata apenas de descentralizar responsabilidades nas subprefeituras. Mas de usar a tecnologia existente para atender diretamente um cidadão. Temos milhões de celulares na cidade que podem ser utilizados como meio de fiscalização do poder público, organização das medidas de trânsito e demais serviços públicos. Está na hora de dar um salto do conceito de “cidade inteligente” para o de “cidadão inteligente”, que a partir de suas demandas pode ajudar a Prefeitura a dar-lhe tratamento individualizado em meio aos seus 10 milhões de vizinhos.

Escolhemos São Paulo para viver porque ela nos dá um oceano de possibilidades de desenvolvimento pessoal, a despeito de todos os seus problemas. E ela pode ser ainda melhor, com um governo que atue para reduzir suas diferenças sociais, aposte no desenvolvimento humano, facilite a participação dos cidadãos, abra-se aos empreendedores e preserve o meio ambiente. Assim, quem sabe nos próximos quatro anos possamos observar uma mudança no índice de satisfação dos paulistanos com a sua cidade.

(Texto originalmente publicado em “O Estado de S. Paulo”)

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Categorias:Cepesp na Mídia

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