Marcos Fernandes: o auto-engano (?) de Jessé Souza

“Marx was the economist who discovered ideology for us and who understood its nature. Fifty years before Freud, this was a performance of the first order. But, strange to relate, he was entirely blind to its dangers so far as he himself was concerned. Only other people, the bourgeois economists and the utopian socialists, were victims of ideology. At the same time, the ideological character of his premises and the ideological bias of his argument are everywhere obvious”

Joseph Alois Schumpeter, Science and Ideology

O presidente do Ipea, Jessé Souza, concedeu uma entrevista ao Globo que vai ao encontro, infelizmente, de uma outra dada ao Valor Econômico – esta devidamente desconstruída por Samuel Pessôa na Folha de S. Paulo.

Na que comento agora, de O Globo, ele volta a repetir o que acredito ser fruto de falta de informação, adicionada a um certo autoengano (de boa-fé, espero) e ao uso de dados, fatos e ideologias para construir um discurso, uma versão, uma invenção muito conveniente para aqueles que alegam carregar a história na mão, em contraposição a nós, malvados, os que ‘do outro lado estão”.

De pronto já digo que gosto do trabalho dele e sua equipe, dou capítulos de “Ralé Brasileira” para alunos lerem, acho que a crítica que em 2011 ele fez à ideia de formação de uma nova classe média tem sua relevância. E espero ansioso – já comprei na pré-venda – para ler seu último livro, embora já saiba de antemão, pela sinopse e por esta entrevista, que ficarei decepcionado.

Para decompor Jessé Souza seguirei ipsis literis a entrevista sem descontextualizar. Alerto, contudo, que injusto posso ser pois há vários canais de entropia de informação em uma entrevista – sobretudo a edição final da mesma, o que muitas vezes distorce o que o entrevistado “realmente desejava dizer”. Todavia, dada a entrevista ao Valor e o teor convergente de ambas, este risco deve ser pequeno.

Vamos lá, apertem os cintos e peguem, aqueles que não são tão tolerantes como eu, o saquinho para enjoo:

(O Globo) O título do seu livro é bastante provocativo. Quem é a inteligência brasileira e onde está sua tolice?

(Jessé Souza) “No fundo é uma crítica aos grandes sociólogos do país e à forma como foi montada a Ciência Social no Brasil, mostrando como desde o início houve menos compromisso com cientificidade e mais com a política. É muito problemático quando há uma colonização do interesse da política, como ocorre aqui, um culturalismo conservador que idealiza os Estados Unidos e cria uma imagem negativa do Brasil. É a tolice da inteligência, dos nossos grandes pensadores, dos especialistas, que estão engolindo uma concepção de inferioridade do brasileiro, supondo que existem sociedades perfeitas, onde não há corrupção. Esses autores todos criaram uma ideia, que é assumida por todos nós, do brasileiro definido pela sua desonestidade e corrupção. E uma visão do Estado se opondo ao mercado, sendo ineficiente, enquanto o mercado é o reino de todas as virtudes. A noção de corrupção foi construída paulatinamente no Brasil e sempre pode ser despertada. Ela pode estar adormecida e ser acordada, porque faz parte do patrimônio cultural do Brasil.”

Comentário 1: ele tem alguns pontos, como a politização na formação dos cientistas sociais (preciso ler o livro para ver e crer) e sobre o complexo de vira-lata, mas desconfio que ele vai errar por vias erradas mesmo;

Comentário 2: a análise que ele faz da suposta demonização do Estado e a santificação do Mercado não possui sustentação em nenhum trabalho de nenhum cientista social brasileiro de relevância. Mas nem José Guilherme Merquior, intelectual de direita bem formado e informado, sustentava tal ponto de vista.

Nota: a estratégia de retórica para ele construir seu modelo maniqueísta funcional começa com a colocação sutil de elite intelectual que demoniza o Estado, o bom, o pobre do agente público, belo weberiano bismarckiano e santifica o malvado agente econômico.

(O Globo) Essa leitura está errada? O Estado, no Brasil, não é corrupto?”

“A questão não é o Estado ser ou não corrupto. Claro que é bom que não seja, é importante que seja transparente e não seja corrupto. Mas essa é a meia verdade, porque nem de longe é a questão principal. Todos os Estados do mundo são aprisionados por interesses privados. Nos EUA, o Estado é extremamente privatizado, segue os interesses das grandes empresas, o Exército americano mata muita gente no mundo para proteger interesses de empresas. O Estado é sempre privatizado. A questão é: por quem? Ou ele é privatizado por uma minoria ou é posto a serviço da maioria. Quase nunca no Brasil o Estado foi posto a serviço da maioria. Eu me lembro de dois momentos históricos, no governo de Getúlio Vargas e no período Lula-Dilma, quando os recursos foram usados também para promover a ascensão das classes populares.”

Comentário 1: é exatamente porque o Estado pode ser privatizado que muitos daqueles, que ao que me parece na cabeça de Jessé, nesta construção sutil de uma fraude ideológica são “os marvado”, querem melhor governança da Petrobrás, privatizar o que não é core business (usei o termo somente para provocar…hehe) do Estado, avaliação e transparência de políticas públicas;

Comentário 2: Bolsa Família ninguém discute, aliás ideia antiga do próprio Merquior e depois incorporada por Ruth Cardoso, mas unificada e genialmente implementada pela gestão petista…. mas, espera, “O Pai dos Pobres, Mãe dos Ricos” (Gegê) e Lula e Dilma com o BNDES, Eike (Eike!) não deu dindim de pobre ou trabalhador (FAT, FGTS) para rico!?

(O Globo) No momento, o senhor acha que o Estado está a serviço da maioria?

“Está em uma encruzilhada, porque o Estado não tem uma vontade. A sociedade manda no Estado. Se a sociedade brasileira der uma guinada conservadora, o Estado vai ter que acompanhar. E, em grande medida, quem confere argumento para essa guinada conservadora é a leitura dessa pseudociência. Ela monta um jogo de oposição entre mercado e Estado, que não é verdadeiro, porque não se trata de uma luta, os dois vão juntos, um depende do outro. Mas essa oposição é dramatizada, e a questão é: isso serve a quem?”

Comentário 1: aos maçons;

Comentário 2: espero que no livro ele fulanize, pois eu não conheço nenhum colega economista meu, cientista político ou sociólogo racional que defenda esta dicotomia que, concordo, é vulgar;

Nota: notem como o discurso, na estratégia de construção retórica, sempre cai no “é nóis o resto é o resto mâno” e “serve a quem”… já falei, maçons

(O Globo) E por que de repente esse “drama” veio à tona com força?

“Veio agora porque antes tinha um cenário muito favorável, todos ganhavam. Num contexto, onde começa a ter escassez, é aquela história: “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Então todos os setores que sabem que não têm como dar benefícios para todos querem voltar ao velho esquema do Estado privatizado pelo interesse de uma minoria. E conseguem isso demonizando o Estado. Foi assim na época de Getúlio Vargas, na época de João Goulart e na época de Lula e Dilma. Isso é fato.”

Comentário 1: sem comentários, ou apenas noto que a estrutura política e social hoje é completamente diferente, bem como o contexto geopolítico;

Comentário 2: não é verdade que durante FHC I e II não se construíram as bases para o combate à pobreza. O gasto social começa a crescer com FHC e a própria estabilidade macroeconômica foi essencial para o combate à pobreza, pois ela em si já é uma ação contra pobreza – ver, por exemplo, A Comparative Perspective on Poverty Reduction in Brazil, China and India e Poverty reduction without economic growth?: Explaining Brazil’s poverty dynamics, 1985–2004, de Francisco H.G. Ferreiraa,  Phillippe G. Leite e Martin Ravallion.

Nota: seguindo na análise baseada em Saussure de significado e significando (você, leitor, não levou essa a sério né!? É que é sempre bom falar um nome em francês…), “Isso é fato” é um recurso discursivo que escapa ao argumento.

(O Globo) O senhor está traçando o cenário atual como de um pré-golpe?”

“Tem uma tentativa óbvia de golpe que articula os mesmos elementos de todos os golpes anteriores. Esse nível de corrupção só pode ser mostrado agora, porque antes todas as investigações eram engavetadas e agora as coisas são levadas até o fim. Mas isso está sendo usado, numa dramatização, para o enfraquecimento do Estado, porque, numa sociedade conservadora como a nossa, qualquer ajuda efetiva para as classes populares é vista como um crime pela elite. E nossa classe média tem uma parte que é extremamente conservadora e não gostou da ascensão da classe popular, não gostou de o pessoal estar andando de avião, da meninada da periferia ir ao shopping. Isso não é racional, tem a ver com afeto, com o medo de que as pessoas que estão ascendendo tomem seu lugar, seus cargos, medo que seus privilégios sejam tocados. Quantas pessoas reclamam porque a empregada doméstica tem alguns poucos direitos e não podem mais usá-la como escrava?”

Comentário 1: não vejo nada de óbvio.

Comentário 2: ele tem um ponto e eu mesmo já escrevi algo assim na defesa de Bresser Pereira por sustentar que, sim, existe raiva de pobre, mas tem pobre que tem raiva dos mais pobres e isso, amigo, é inveja, status, Teoria dos sentimentos Morais ou basta ver Carlo Ponti, Brutti, sporchi e cattivi: é universal e não é peculiar ao Brasiliensium homo Classe AB malum.

(O Globo) A classe média teme a redução da pobreza e da desigualdade?

“A classe média tradicional teme a ascensão dos que estão embaixo e tem ressentimento contra quem está em cima. Vai sempre dizer que a pessoa fez alguma coisa errada para chegar lá em cima, quase sempre com a ajuda do Estado. Ela é uma santa a vida toda, até porque nunca esteve em cargo de poder onde sua honestidade vai ser testada. Ela se põe como a guardiã da moralidade. A classe média exporta o mal, o mal está sempre fora. E explora os mais pobres – e no Brasil essa exploração é uma espoliação absurda – mas finge que é boazinha, afinal de contas, a empregada doméstica é quase da família. E, assim, exime-se da responsabilidade, como se o mundo fosse assim mesmo e você não tivesse nada a ver com essa exploração de classe que pratica diariamente. E como essa exploração é escondida, porque a ciência não tematiza, nem a empresa, nem a escola, nem a universidade, você fica cego em relação a sua parte na perversidade, na maldade, na exploração dos mais pobres e no abandono dos mais frágeis. E aí adquire a coisa que todos os seres humanos querem tanto quanto um prato de comida, que é a boa consciência, a capacidade de legitimar a vida que você tem, dizer que está ali por merecimento. Ela tem essa necessidade afetiva que vai ser satisfeita por um discurso que se torna dominante, mas permite que ela seja manipulada quando a época histórica convém.”

Comentário: não entendi nada.

(O Globo) Como foi a reação da classe alta?

“Há um incômodo da elite também porque ela não percebe o mundo de modo diferente da classe média. No Brasil, não temos uma classe alta no sentido europeu do termo, temos a classe dos endinheirados. Pense no Eike Batista botando a Mercedes dele na sala. Jamais alguém de classe alta da França ou na Alemanha faria isso. Essa classe dos endinheirados também ficou incomodada. Apesar de isso ter sido bom para todo mundo, todo mundo ganhou, fortaleceu o mercado interno, a mudança social que aconteceu no Brasil gerou uma série de ressentimentos. A gente tem que ter a coragem de apontar isso. A desigualdade brasileira foi sempre cuidadosamente escondida, a ciência que a gente estava criando nunca pôs a desigualdade no centro das preocupações. Ao contrário, invisibiliza a desigualdade, torna invisíveis as causas e faz parecer que é por burrice ou preguiça que se é pobre.”

Comentário 1: Eike Batista e o Mr Lam são a cara deste Brasil desenhado por Dilma, onde pobre financia rico, agora via imposto inflacionário, Jessé Souza;

Comentário 2: olha como sou bonzinho…ele tem alguns pontos, a elite é meio brega no Brasil, mas no Texas também, mas as elites ficam mais bonitinhas com luta de classes, O Leopardo (lembra, Tancredi!?) e outras coisas mais.

(O Globo) A desigualdade é mais grave do que a corrupção?

“Sem dúvida alguma, a desigualdade é mais grave que a corrupção, é de longe a questão mais importante. Obviamente o combate à corrupção, a transparência nos negócios públicos são virtudes republicanas fundamentais para qualquer democracia. O problema é a corrupção ser manipulada politicamente para legitimar interesses que não podem ser expressos de modo direto. A corrupção tem que ser combatida como um fato cotidiano. Quando isso acontece nos outros países, não leva ao drama político, a esse carnaval todo. É o jogo de estar cuidando do interesse da maioria, de limpar o país, enquanto as pessoas continuam sofrendo.”

Comentário: corrupção manipulada politicamente é difícil de entender a não ser dentro do arcabouço, que ora concluo aqui sua genealogia, da teoria da conspiração maçônica.

(O Globo) Como avalia o resultado da Pnad, que foi divulgada sexta-feira?

“Os dados recentes frustram os que achavam que o Brasil passaria por um retrocesso social inevitável com a crise econômica. Os números mostram, por exemplo, que a desigualdade continua caindo e a renda real do trabalho continua subindo. Também o analfabetismo continua caindo, e tudo indica que continua a haver uma melhora nas condições estruturais de vida da nova classe trabalhadora que ascendeu nos últimos anos, ou seja, do segmento que já havíamos estudado empiricamente e denominamos de “batalhadores brasileiros”. O problema se dá nos aspectos conjunturais, especialmente no mercado de trabalho, onde o desemprego aumentou. Tudo combinado mostra que o modelo de desenvolvimento com ascensão social dos mais pobres não está liquidado. Mostra, inclusive, extraordinária capacidade de resistência.”

Comentário: ok.

(O Globo) O que o senhor vê para o futuro?

“A gente está numa encruzilhada onde há oportunidades e desvios. A gente pode fazer a mesma coisa que fez a História do Brasil no século XX, ceder ao golpismo, à possibilidade de as pessoas poderem mandar sem o voto. Ou a gente repete isso e os endinheirados e poderosos voltam a mandar sem terem sido eleitos, ou faz um processo de aprendizado, de mudar essa história. As duas hipóteses são possíveis.”

Comentário: a verdade está lá fora, pois golpismo ou chamar de golpista todos – há alguns que são mesmo – mas todos que se indignam com o estelionato eleitoral, com a destruição das instituições fiscais e com o populismo econômico é no mínimo soberba.

(Pensando bem, vou cancelar minha compra e trocar pelo último do Dan Brown!)

Nota: volte agora para o início do artigo e veja a citação clássica de Schumpeter. Verás que há um vício de saída interessante no marxismo e suas derivações: eles são donos da verdade, conhecem tudo e nós, alienados, por interesse (capitalista) ou ilusão da posição de classe (capitalista que age automaticamente sem o saber pelo capital). A diferença disso para fundamentalismo religiosos laicos (parece, mas não é, uma contradição nos termos) é tênue.

(MARCOS FERNANDES G DA SILVA, 52, pesquisador associado de políticas públicas (CEPESP/FGV), professor de microeconomia e governo (FGV/EAESP e DireitoGV) e economista da Fundação Getulio Vargas. Email: mfgdasilva@uol.com.br)

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Categorias:Marcos Fernandes

1 resposta

  1. Senhor Marcos Silva, li seu texto na expectativa de encontrar boas reflexões críticas sobre as ideias de Jessé (as quais estudo em minha pós-graduação em Psicologia Social e que versa sobre políticas sociais).

    No entanto, infelizmente fiquei decepcionado. Você simplesmente reiterou e fortaleceu os argumentos do autor que inicialmente presumiu criticar. Com seu “charminho crítico” e a cegueira economicista você perdeu uma ótima oportunidade de não passar vexame ao expor suas ideias tão rasas. Poxa, a epígrafe do Schumpeter já te deixou bem posicionado em termos de herança acadêmica, mas pela sua última nota chego mesmo a pensar que você considera Jessé Souza um autor marxista. (Detalhe: não sejas soberbo – para usar seu próprio termo – e, por honestidade, mostre aos seus leitores que você sabe fazer o mínimo diferenciando Marx dos marxistas).

    Enfim, uma pena que seu texto foi tão fraco. Não o conheço e tampouco me filio à mesma tradição de pensamento que você parece seguir, mas em termos de desempenho, a “crítica” que você se propôs a fazer é, no mínimo, pífia.

    Saudações
    JF

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