Marcos Fernandes: bater panelas é justo e necessário

Confesso que tenho um tanto de vergonha em bater panela dado que não me identifico com muitos que o fazem, mas creio que estou errado. Explico-me.

Em campanha, a presidente e o PT prometeram o oposto do que foi entregue. Inflação fora de controle, gestão do setor de energia equivocada, descongelamento de preços administrados (correto, mas fatal em suas consequências), má gestão do setor de petróleo, desenho equivocado do contrato do pré-sal, energia (área de formação da presidente) e nos Fundos de Pensão estatais, desemprego, perda de conquistas, sensação de insegurança. Isso sem falar na corrupção na Petrobrás, cuja CEO é Dilma, bem como agora aparecendo na Eletrobrás.

O programa do PT de 6 de agosto, por exemplo, foi uma mistura de dissonância cognitiva, autoengano, ignorância, tortura dos fatos, com uma pitada de arrogância. Diante disso entendemos bem o programa do humorista britânico John Oliver, no qual, em comentando o caso Petrobrás e os panelaços, bate panelas ao final. Meus amigos correspondentes estrangeiros, muitos de esquerda, estão perplexos com Dilma e o PT. Não é por menos. Uma vez reeleita, Dilma não admite que errou, não pede desculpas para a nação; o presidente do partido parece não viver no mesmo país que nós. A lista é grande.

Mas podem argumentar que as pessoas que batem panelas são “de direita”, “classe média coxinha”. Em parte, são, e elas têm o direito de pensar e agir livremente. Teorias conspiratórias e maniqueísmos andam juntos. Lembro-me da segunda grande manifestação em São Paulo em 2013: uma amiga petista (sim, tenho amigos petistas e eleitores convictos de Dilma, poucos…que sobraram…dão um trabalho!) de cara me manda uma mensagem…”golpe em andamento, direita nas ruas”. Jesus, quanta assimetria entre a realidade e a imaginação conspiratória.

Por exemplo, o colega de Fundação Getúlio Vargas e cientista político, Sérgio Praça, em seu blog “Política com Ciência” (e digo eu, sem crença, mas fatos), revelou um dado importante sobre o perfil dos participantes dos protestos de 2013. Matthew Winters e Rebecca Weitz-Shapiro, em artigo acadêmico publicado ano passado no Journal of Politics in Latin America, mostram que (i) nos protestos os cidadãos não se identificavam com partidos e (ii) os alinhados com do Partido Verde PV e com PSOL eram mais numerosos que indivíduos da direita politicamente organizada.

Algo semelhante ao autoengano conspiratório aparece nas pseudoanálises de alguns intelectuais (que ignoram dados, modelos e preferem crendices infundadas). Imaginam que as pessoas são manipuladas por oráculos chomskynianos. Venhamos e convenhamos, numa democracia de massas, todos somos, em algum momento, massa mesmo e, por vezes, elite. Explico: como economista sou elite, assim como filósofo da ciência, que seja. Logo sei mais do que os outros e sou mais bem informado e formado (nestes campos). Mas na hora em que o Congresso vai discutir transgênicos, células tronco, sou massa, preciso ler, me informar com biólogos que pensam, se possível e desejável, de forma diferente a ponto de poder tirar minhas conclusões se me posicionar politicamente como eleitor a favor ou não de uma lei.

Os formadores de opinião, biólogos e economistas, cientistas políticos, juristas, engenheiros, todos os profissionais, usam os meios de comunicação – como o faço agora – para formar opinião. Cabe ao cidadão discernir  entre o que falamos e os fatos. Educação crítica faz falta neste momento e sabemos como caro isto é ao Brasil, posto que mesmo entre pessoas ditas “de elite” o maniqueísmo que separa o mundo entre petralhas e coxinhas prevalece. Mas este é o eleitor que temos.

Muito bem, os paneleiros – que vão de Moema a Marsilac, de Pirituba a Itaquera agora (ai santo autoengano!) não precisam, como nós, saber de tudo: eles assistem televisão, leem notícias no smartphone e analisam – tudo que foi prometido numa eleição sanguinolenta, dominada por marqueteiro vendedor de biscoito e não por debate, não é entregue (no delivery, afinal não foi tudo marketing mentiroso!?).

Ou o intelectual orgânico do PT (parece-me que não há mais isto, a cúpula do partido é medíocre, ao contrário do passado) acha que as massas são inteligentes, esclarecidas e iluminadas superando a alienação burguesa somente quando votam em Dilma e no PT ou ela/ele me lembra um economista famoso que, diante do fato de que sua teoria era contrariada pela realidade, proclamou em bom tom, bradando “a realidade está errada!”.

Mas ao início deste artigo coloquei que tenho vergonha de panelar (acabei de criar o verbo) dado que não me identifico com muitos que o fazem, mas estaria errado ao agir assim. Estou mesmo, pois irei para a rua e baterei, panelarei. Afinal, não é porque alguns participantes são preconceituosos, ignorantes e arrogantes à direita que vou me privar de dizer: basta de mentira e salto alto. Afinal, muitos à esquerda que não batem panelas e não vão às ruas compartilham os péssimos predicados acima.

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Categorias:Marcos Fernandes, PT

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