Marcos Fernandes: Haddad acerta no problema do crack

A política pública para o crack do Prefeito Fernando Haddad está sendo criticada de forma injusta e, diria, irresponsável e ignorante. Injusta, pois não levam em consideração as alternativas (quem propõe internação propõe uma higiene social oitocentista), irresponsável, pois aparentemente atrelada somente à crítica partidária e ignorante, pois ipsis litteris ignora a literatura sobre o tema.

Leio os livros e acompanho o trabalho, há anos, de Carl Hart, psicólogo experimental, ativista, professor e divulgador científico que trabalha com o problema da adição e do vício, duas coisas, aliás, bem diferentes, como abaixo explicarei. Não foi surpresa minha que quando a política do crack foi implementada em São Paulo noticiou-se que o prefeito estava lendo um livro dele, pois o que foi feito teve base em seus trabalhos.

Em matéria recente da Folha de S. Paulo,  ficamos sabendo, como se fosse sinal de fracasso, que 4 em cada 10 participantes do programa não conseguem abandonar o uso da droga.

Seria interessante dizer que 6 em cada 10 que se recuperam e não usam a droga está dentro da expectativa e é indicador de sucesso, e não fracasso, pelo menos como nos mostra a literatura e a experiência, prática e científica.

Por falar em experiência científica e não em jornalismo enviesado e achismo etílico de boteco, valeria a pena ver um experimento – explicado em cartoon para os mais preguiçosos – de Hart e outros pesquisadores neurocientistas.

Aqui simplifico a estória. Imagine 10 ratinhos confinados numa caixa de 1 metro quadrado que somente têm acesso a uma solução de cocaína e nada mais. Eles obviamente não pararão de usar a droga. O desavisado já diz: “tá vendo, ficou viciado”. Agora imagine os mesmos dez roedores na mesma caixa, mas agora com um acesso a outra, de 3 metros quadrados com comidinhas gostosas, brinquedos (aqueles rodinhas que eles adoram…..) tudo verdinho e bonito. Considere o seguinte resultado: agora 6 de cada 10 ratinhos não voltam para a outra caixa. São viciados? Precisam ser internados?

Acima comentei: tratar todos os usuários por viciados é um erro, erro de sete cabeças que alimenta clínicas de alguns psiquiatras e poucos, mas perigosos, religiosos picaretas: moralismo, dinheiro e higienismo social, coisas oitocentistas, mais uma vez.

Bem, de volta a São Paulo: troque os ratinhos por usuários de crack e considere o programa de oportunidades criado pela prefeitura como a caixinha mais bacana dos mickeys. Pois é, o programa de Haddad não veio do nada, mas da aplicação de literatura científica de políticas públicas de saúde: isso é inovação de tecnologia social.

Não é um deus ex machina, mas nenhuma política o é. Atire a primeira pedra! Espero, ansioso.

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Categorias:Assuntos Contemporâneos, Marcos Fernandes

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