Cláudio Couto: corpo no Planalto, cabeça na clandestinidade

Para o cientista político Cláudio Couto, professor da FGV-SP e pesquisador do Cepesp, “Dilma Rousseff no governo parece ter mantido traços da atuação política na clandestinidade. O estilo concentrador e controlador, avesso à delegação, desconfiado de tudo e de todos, parece o de quem ainda opera na clandestinidade da guerrilha. O mesmo vale para o estilo belicoso, a pouca disposição ao diálogo e a aceitação fácil de táticas conspiratórias contra aliados tal qual o ardil que uniu o PT e Kassab contra o PMDB”. O raciocínio consta de artigo publicado recentemente no “Valor Econômico”. Confira a íntegra abaixo!

Estilos descasamento

Dados recentes tornam ainda mais evidente o tamanho da crise política em que o país se vê mergulhado. Na semana que passou, a pesquisa CNI-IBOPE sobre a avaliação do governo trouxe-lhe dados tenebrosos. Nada menos que 64% dos brasileiros consideram a gestão atual ruim ou péssima, sendo que o péssimo prepondera com 47%. Na outra ponta, apenas 12% a avaliam como boa ou ótima com somente 3% de ótimo. E não se trata de uma avaliação negativa apenas para o presente, mas também para o futuro, pois 55% dos cidadãos acreditam que a coisa não vai melhorar novamente, predominando os que acham que seguirá péssima, com 38%. Por fim, a desaprovação e a desconfiança com relação à presidente também atingiram os píncaros, com 78% e 74%, respectivamente.

Esse cenário tétrico não se torna benévolo em qualquer faixa de renda, de escolaridade, de idade ou região do país. Os mais otimistas com relação à presidente são os mais velhos e menos escolarizados: “apenas” 67% deles a desaprovam. Nos estratos mais jovens essa desaprovação chega aos 84%; nos mais escolarizados, aos 86%. Até mesmo entre os mais pobres (renda de até um salário mínimo), esteio tradicional dos presidentes petistas, a desaprovação da presidente é elevadíssima: 70%. É o mesmo índice de reprovação encontrado na mais benevolente das regiões, o Nordeste. Ou seja, não há para onde correr. De onde vem essa crise?

Em primeiro lugar, claro, vem do mau humor com a economia, também identificado pela pesquisa. A desaceleração, a inflação renitente, as más notícias constantes e, consequentemente, o pessimismo com relação ao futuro alimentam o desalento. Não bastasse tudo isso, a presidente precisou corrigir os estragos de seu primeiro mandato, renegando tudo o que disse durante a campanha tanto em relação a si, quanto no que concerne a seus adversários. Nem a sua auto-herança maldita, nem a sua mudança de rumos passaram desapercebidos.

Não bastassem os desacertos na economia, que sempre cobram um preço alto, soma-se
à crise o estilo presidencial. Centralizadora, convicta e mandona, durante seu primeiro mandato a presidente alienou auxiliares mais arrojados e cercou-se principalmente de ministros de perfil baixo. Pareceu tentar uma mudança de rumos em seu segundo termo, convocando dois ex-governadores e delegando a gestão macroeconômica a um antípoda
no que diz respeito às convicções da política a ser seguida. Talvez estivesse aí, finalmente, optando por fazer algo que sempre rechaçou: delegar. E delegar é a palavra-chave para fazer as coisas andarem. Claro, desde que os incumbentes sejam talhados ao ofício que lhes é atribuído.

Parece que acertaram inadvertida e parcialmente embora por vias muito tortas os detratores da presidente que desde sua primeira candidatura resolveram lhe achincalhar com o estigma de “guerrilheira”. A tortuosidade desse qualificativo, seu defeito mais grave, é ignorar por completo a mudança política e ideológica imensa por que passaram, desde os anos de chumbo, tanto a esquerda de um modo geral, como a presidente em particular. Exceto para os afeitos a caricaturas, hoje não há como deixar de reconhecer seu apego aos valores da democracia e a consequente rejeição ao autoritarismo de esquerda de que partilhavam muitas das organizações guerrilheiras do período ditatorial bem como seus militantes. Assim como o tucano Aloysio Nunes Ferreira já não é mais o motorista de Carlos Marighella (como facilmente reconhecem seus atuais eleitores), a petista Dilma Rousseff também não é a militante da VAR-Palmares.

Só que a atual chefe de governo parece ter mantido traços da atuação política na clandestinidade. O estilo concentrador e controlador, avesso à delegação, desconfiado de tudo e de todos, parece o de quem ainda opera na clandestinidade da guerrilha. O mesmo vale para o estilo belicoso, a pouca disposição ao diálogo e a aceitação fácil de táticas conspiratórias contra aliados tal qual o ardil que uniu o PT e Kassab contra o PMDB. Se durante a ditadura o modus operandi da clandestinidade já não foi capaz de produzir vitórias políticas relevantes, o que dizer então dessa mesma forma de agir num cenário em que se impõem por razões institucionais a delegação, a partilha do poder e a criação de laços de confiança entre aliados com os quais não se tem afinidades ideológicas.

Esse estilo tornou fácil que ao desajuste econômico se somasse um desajuste político. Não é à toa que hoje o Executivo enfrenta dificuldades muito maiores do que durante o governo Lula ou mesmo durante o primeiro ano do governo Dilma para manter sua base fiel no Congresso. Levantamento junto a deputados feito pela consultoria Arko Advice mostra que 61% deles considera a relação com o governo como ruim ou péssima, enquanto 66% desaprovam a maneira da presidente governar. Os números são tão ruins quanto os da pesquisa feita pelo Ibope com os cidadãos comuns. Com a diferença nada negligenciável de que o voto dos parlamentares interessa ao governo desde já e não apenas em 2018.

Não bastasse tudo isso, soma-se à crise a postura do PT diante dela. Vê-se desde há algum tempo um partido ensimesmado, incapaz de dar mostras à sociedade de que é capaz de fazer uma autocrítica, sanear-se e indicar que não pretende apenas ensinar aos cidadãos o que é o certo, mas também aprender com eles, levando em conta suas insatisfações na formulação de seu próprio projeto. A consequência disto é um declínio inaudito do prestígio do PT junto à população, sugerindo que muito provavelmente nas próximas eleições municipais o partido deixará de apresentar o crescimento continuado que lhe caracterizou a cada novo pleito nesse nível. Para além de problemas inerentes à sua gestão, o prefeito Fernando Haddad, já se ressente do desgaste da imagem de seu partido no epicentro do sentimento anti-petista São Paulo. Esse sentimento, contudo, não está restrito aos paulistanos ou aos paulistas, e menos ainda de forma única aos seus estratos médios.

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Categorias:Cepesp na Mídia

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