5 perguntas para Cláudio Couto

O cientista político Cláudio Couto, professor da FGV-SP e pesquisador do Cepesp, responde cinco perguntas sobre a política brasileira atual. De acordo com ele, o novo Congresso não é diferente dos anteriores – não se tornou mais conservador – e Dilma Rousseff precisa rever sua lógica para formar o ministério.

1) Quais são as consequências, do ponto de vista do cidadão, das eleições parlamentares deste ano? Há uma nova tendência “ideológica” do Congresso?

Não vejo o novo Congresso como diferente dos que lhe antecederam. Houve quem falasse num Congresso mais conservador, porém ao se observar a composição partidária resultante da eleição, temos mais do mesmo. O que houve – e isto me parece bem mais claro – foi um aumento da fragmentação partidária no Legislativo Federal (e também nos estaduais, diga-se de passagem). Os maiores partidos perderam cadeiras (PT, PMDB, PSDB, DEM) e partidos menores as ganharam. Surgiram “novos médios” partidos, como o PSD e o PRB; um porque disputou sua primeira eleição congressual, outro porque praticamente dobrou sua bancada. E uma miríade de pequenos partidos tiveram ganhos, sem deixar de ser pequenos. Em suma, as coalizões de governo continuarão a ser feitas como antes, pois os partidos de adesão seguem sendo majoritários e, portanto, indispensáveis.

2) Quais são as consequências, do ponto de vista do cidadão, de as eleições presidenciais terem sido tão acirradas, especialmente no segundo turno?

Creio que se produziu um acirramento ideológico considerável, mas isso não se deve unicamente ao acirramento da disputa eleitoral propriamente dita. Já há alguns anos temos certos formadores de opinião contribuindo para fomentar um clima de acirramento ideológico. Em parte isto provém de uma persistente abordagem caricatural dos fatos políticos, em parte do surgimento de um mercado de ideias propício à difusão de um discurso de ódio político. Quando chega o momento da eleição, entende-se que ela se torna uma questão de tudo ou nada. Daí, o fato de ter sido uma disputa tão apertada acabou por potencializar esse ânimo para a briga. É o que explica essas seguidas manifestações de inconformismo com a derrota eleitoral, pedindo-se impeachment da presidente, intervenção militar, auditoria eleitoral ou coisa que o valha.

3) Se você fosse presidente, como você montaria a coalizão de governo para 2015? O caminho que Dilma está trilhando lhe parece eficaz?

Não vejo muita alternativa que não passe por essa distribuição de cargos e sinalização de boa vontade para a liberação de verbas. Como Dilma é uma presidente fraca, sobra-lhe pouco espaço para impor restrições nesse processo de concessão. Ela tentou fazer isto no início do primeiro mandato, mas não teve a destreza necessária para operar essa frente de forma bem sucedida. Montou um ministério em parte fisiológico (no quinhão que coube aos aliados), em parte de perfil baixo (no quinhão que cabia a ela e ao PT). Poderia começar montando um ministério de perfil politicamente mais avantajado, com ministros de maior calibre. A meu ver, o Levy, o Nelson Barbosa e o Armando Monteiro têm esse perfil. O Berzoini, se continuar, também. Jacques Wagner seria outro nome de peso, para dar peso ao ministério. Vamos ver o que vem.

4) O PMDB é o partido mais importante do país?

Eu entendo que há três partidos axiais da política brasileira: o PT, o PSDB e o PMDB. Os dois primeiros porque polarizam a disputa nacional, o segundo porque é o mais implantado no território nacional e o principal partido de adesão no Congresso, sendo capaz de liderar o legislativo – o que não é pouca coisa. Nesse contexto, o PMDB não é mais importante, mas é um dos três mais importantes.

5) A reforma política que Dilma propõe tem alguma chance de prosperar em 2015?

Talvez alguns pontos de uma (não “da”) reforma política prosperem. Eu creio que essa preocupação em defender uma reforma política (ou “a” reforma política) é uma forma de dar uma satisfação à sociedade, tentando demonstrar que o governo não está satisfeito com a qualidade da política que se pratica no Brasil, da mesma forma que os cidadãos não estão. O problema é que cada um pensa que reforma política é uma coisa diferente, de modo que não sabemos se fazer uma reforma política vai nesta ou naquela direção, vai melhorar ou piorar as coisas, ou ainda se vai piorar algumas e melhorar outras. Reforma, política ou de casa, é mais ou menos a mesma coisa: você pode derrubar uma parede para aumentar a sala, perdendo um cômodo, ou pode dividir a sala em três, ganhando dois novos cômodos. Seja lá o que for que você fizer, e seja lá qual for a qualidade do resultado, será uma reforma.

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