Marcos Fernandes: Fernando Haddad é muito moderno para (alguns) paulistanos

A gestão de Fernando Haddad à frente da Prefeitura de São Paulo tem sido alvo de constantes críticas e acalorados debates. Na última pesquisa divulgada pelo Datafolha, em junho, ele tinha a aprovação de apenas 17% dos paulistanos.

O professor da FGV-SP e pesquisador do Cepesp, Marcos Fernandes Gonçalves da Silva, fez um artigo exclusivo para o blog para analisar as ações de Haddad sob a lente das políticas públicas colocas em prática até agora.

As linhas abaixo não representam o ponto de vista institucional do Cepesp. São apenas mais uma opinião para enriquecer o debate.

Fernando Haddad é muito moderno para (alguns) paulistanos
Por Marcos Fernandes Gonçalves da Silva

O prefeito Fernando Haddad teve dois anos difíceis de governo, seja pela restrição orçamentária ou pelas manifestações de junho de 2014. Os dados mostram que há rejeição elevada ao seu governo. Contudo, é o melhor prefeito que a cidade já teve há tempos. Explico-me aqui, como economista de políticas públicas, não como cientista político.

Os economistas costumam trabalhar com diversos modelos de racionalidade para entender os mercados e políticas públicas. Em alguns casos trabalhamos com “agentes”, firmas, pessoas e governos, como se fossem indivíduos perfeitamente racionais, presos a um comportamento adaptativo e passivo. Para resolver alguns problemas, como explicar formação de preços e competição em mercados específicos, tal hipótese se sustenta.

Contudo, para explicar a inovação tecnológica, seja ela a de novos produtos, novas tecnologias e tecnologias organizacionais, usamos uma outra hipótese comportamental, a schumpeteriana, associada ao nome de J. A. Schumpeter, economista com trabalhos e ideias de larga importância, da primeira metade do século passado.

Schumpeter nos fala, corretamente, que para entender o comportamento de um inovador, não podemos achar que ele ou ela seja um agente passivo, mas ativo, corajoso e audacioso, “energético” como certa feita definiu-o. O empreendedor inovador luta contra tudo e todos, destrói paradigmas e muitas vezes, como grandes artistas e cientistas, somente é reconhecido depois de seus feitos serem, num primeiro momento, desdenhados pelo consenso estabelecido.

Haddad poderia ser um populista, ou apenas um político racional que maximizaria ganhos de curto prazo, padecendo de miopia e adequando-a à dos eleitores. Mas ele começou seu governo como inovador, e não somente o fez devido à pressão popular do “tarifa zero”, dado que antes de tudo ele criou uma inovação organizacional radical, a Corregedoria Geral do Município (CGM).

Ao citadino, também míope e “curto-prazista” das ações do prefeito, caberia a crítica de que ele é inepto, não “faz as obras de que a cidade precisa”, não “embeleza a cidade” nem resolve o problema do trânsito, principalmente para aqueles que querem que o problema seja resolvido mantendo-se o uso dos carros como o é hoje em dia.

A questão é que Haddad optou por políticas inovadoras, cujo impacto, tal qual saneamento básico, é de longo prazo, mas significam ações preventivas e de planejamento. Poderia eu provar?

  1. A criação da CGM é medicina preventiva da boa, pois cria incentivos ex ante para que não haja corrupção e mecanismos investigativos ex post. Ocioso dizer que tal ação gera melhoria no uso do recurso público do munícipe e racionaliza a gestão;
  2. O prefeito chegou a encomendar um estudo para, de forma correta e inovadora, utilizar recursos da contribuição sobre combustíveis para financiar o “tarifa zero” – ou como nada deve ser de graça, ônibus bem barato, com preço simbólico. Esbarrou no desajuste fiscal do governo federal. Mas fica a iniciativa empreendedora como algo que voltará na pauta no futuro;
  3. Haddad, em reação rápida aos protestos, criou faixas e faixas de ônibus na cidade, antes de ter todos eles disponíveis para usá-las. Inovação nem sempre obedece à lógica da burocracia, mas a da audácia e da sensibilidade política: os “clientes” que queriam mais transporte coletivo de qualidade tinham que receber rápida resposta política, e o tiveram;
  4. O prefeito está tornando a vida dos motoristas de automóveis particulares um inferno: iniciativa inovadora, pois este é o primeiro passo para forçar a saída do carro do centro expandido de São Paulo;
  5. Haddad solicitou a elaboração de um Plano Diretor que é em si mesmo uma inovação organizacional;
  6.  A secretária Leda Paulani, das Finanças, realizou, a pedido de Haddad, um projeto de Planejamento para São Paulo, um verdadeiro Plano de Metas, que amarra a cidade aos interesses mais coletivos, desviando a gestão dos particularismos imediatistas, mormente associados à inevitável especulação imobiliária;
  7. Criou uma política ambiental para a cidade, onde o incentivo à compostagem doméstica (não se inscreveu ainda?) é somente a ponta do iceberg;
  8. Está criando várias ciclovias, para tornar público um espaço que não é somente dos carros.

Claro que falta muita coisa ainda, mas as decisões de Haddad mostram que a sua métrica é longínqua. Mas tenho uma “severa” crítica ao mesmo, pois ele deveria: 

  1. Criar o pedágio urbano;
  2. Propor lei obrigando a construção de cisternas em edificações antigas;
  3. Propor lei obrigando área verde em cima de todos os prédios novos e adaptação, quando possível, nos antigos e a existência de jardineiras nas janelas dos prédios;
  4. Planejar a escola em período integral e creche como espaço de educação (o que ele tem feito).

O prefeito também precisaria, urgentemente, fazer com que as viagens dos trabalhadores que moram longe do trabalho ganhem mais e mais conforto e velocidade. Desta forma será reeleito pela maioria dos cidadãos, que passam cada vez mais a serem tratados como tal. Arriscando uma opinião de cientista político, diria isso.

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Categorias:Cepesp na Mídia

4 respostas

  1. Excelente artigo!!

    Só uma correção: Leda Paulani é Secretária de Planejamento e não Finanças.

  2. Excetuando alguns errinhos e equívocos pontuais e a posição do autor em defesa do pedágio urbano – sou contrário por constituir mais uma exclusão pela via econômica – o artigo faz justiça a gestão Haddad. Acrescentaria, ainda, todo o esforço que a gestão tem feito para promover a participação popular, como a criação dos Conselhos nas 32 Subprefeituras, Conselho da Cidade e do Conselho de Planejamento e Orçamento Participativos-CPOP. E tudo indica que vem mais democracia e modernidade por aí, a despeito dos conservadores e suas mídias incrédulas e mal-intencionadas.

  3. O transporte rapido se daria atraves do metro! Nem sempre politica e’ de confrontacao, mas “…a arte do possivel”! Portanto, deveria ter “forcado” e se juntado ao governo estadual para agilizar este meio de transporte. Mesmo antes das”economicas” corredores de onibus!

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