Como Dilma gerencia a coalizão partidária?

Um dos pontos fundamentais de crítica ao governo Dilma é sua falta de habilidade em acomodar interesses da base partidária e, assim, manter a coalizão fortalecida. Recentemente pressionada pelas manifestações populares, vaiada na abertura da Copa das Confederações e no encontro com prefeitos, a presidente se esforça para manter a aliança  política e fazer passar projetos de interesse do governo.

A fim de acalmar os ânimos e garantir o apoio da base, Dilma autorizou, na terça-feira, a liberação de R$ 2 bilhões em emendas parlamentares prometidas desde maio. A eficiência dessa medida será testada nas próximas votações do Congresso, cuja pauta imediata inclui importantes vitrines para o governo Dilma, como oprograma Mais Médicos e o direcionamento dos royalties do petróleo para a Educação e Saúde.

A seguir, os pesquisadores do Cepesp Sérgio Praça e Carlos Pereira avaliam o momento atual do governo, e comentam as forças e fraquezas do modo Dilma de governar.

Coalizão heterogênea

Dados do Cebrap mostram que o perfil da coalizão de Dilma é mais heterogênea que as de Lula e FHC. Enquanto Fernando Henrique governava, predominantemente, com apoio de três legendas, o PMDB, o PFL e o PTB, além do próprio PSBD, o governo Dilma está submetido a um leque maior de  partidos aliados, cujas aspirações e interesses precisa saciar.

O segundo governo FHC detinha 76,6% das cadeiras do Congresso, ao passo que o governo Dilma tem 62,6%, dividido em oito partidos principais: PT, PR, PC do B, PSB, PMDB, PDT, PP e PRB.

Esse cenário requer uma engenharia política mais afinada. Contudo, ambos os especialistas do Cepesp concordam que o relacionamento partidário não é uma qualidade do governo atual.

“Além de ter uma  coalizão mais heterogênea, a Dilma não gosta de fazer o meio de campo com os parlamentares. Lula e FHC faziam isso muito bem”, diz Sérgio Praça. “As pessoas escaladas pela presidente para fazer a relação com os parlamentares não fazem isso a contento. Vimos muitos eventos desse ruído, como, por exemplo, no Código Florestal, em que houve muita reclamação de parlamentares e recados desencontrados. A Dilma fala uma coisa, a Ideli e Gleisi falam outra”.

“A Presidente Dilma gerencia pessimamente a sua coalizão”, concorda Carlos Pereira, da FGV-RJ. “O número de legisladores pertencentes aos partidos de sua coalizão confere ao governo Dilma uma folgada maioria de 328 votos na Câmara dos Deputados. Entretanto, essa maioria não tem se constituído, necessariamente, em votos no Congresso”.

Carlos lembra que Dilma preferiu alocar 17 ministérios (cerca de 46%) para o PT, que ocupa, atualmente, 88 cadeiras na Câmara dos Deputados (27% das cadeiras da coalizão), ampliando a presença do partido no governo muito além de sua expressividade na Câmara.

Já o PMDB, que tem aproximadamente o mesmo peso político do PT na Câmara, 24% (79 cadeiras), possui apenas seis ministérios (16% do total). Além do PMDB, todos os demais partidos que fazem parte da coalizão do governo Dilma receberam menos ministérios do que o seus pesos políticos na Câmara.

“Partidos como PP, PR (que é a fusão do PL com o PRONA), PDT e PSB receberam uma percentagem baixa de ministérios. É nesse contexto que os aliados sub-recompensados podem buscar formas “heterodoxas” de recompensa. Ou seja, fazer dos espaços ocupados nos ministérios oportunidades de ganho e maximização no curto prazo”, diz Carlos Pereira

Perfil ministerial: a dupla Gleisi e Ideli

A respeito do papel de Ideli Salvatti (Relações Institucionais) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil), os pesquisadores acreditam que o desempenho das ministras é “sofrível”. “Elas não têm representatividade política”, comenta Sérgio. “Além disso, Brasília é um ambiente muito machista. Colocar mulheres em papéis tão cruciais ainda é, infelizmente, algo complicado. Simbolicamente, foram nomeações muito importantes, mas arriscadas”.

“A ministra Ideli Salvatti já faz tempo que perdeu a autoridade e papel de liderança diante dos parceiros da coalizão”, critica Pereira. “Para que a presidenta não termine seu mandato de forma melancólica e abandonada por uma parcela de seus aliados, é necessária uma reforma ministerial ampla”.

Por causa do fraco desempenho das ministras, cresceu o protagonismo do ministro da Educação Aloizio Mercadante. Ele tem, cada vez mais, desempenhado as articulações necessárias nos bastidores. “Mercadante tem uma história maior na política e mais interlocutores que Gleisi e Ideli”, diz Sérgio. “Não sei por que ele ainda não foi nomeado para a Casa Civil”.

 Relação com o PT         

Na opinião de Praça, outro erro de Dilma é o crescente distanciamento com o próprio partido. A ausência da presidente na reunião do diretório nacional PT foi mais uma demonstração de um “erro banal” que carrega um peso simbólico importante.

“Aquilo sinalizou arrogância e fraqueza dentro do partido. Dilma está isolada no PT. Ela não tem uma base forte no partido e nem presença forte junto a setores importantes. Por isso mesmo ela poderia ter tido mais humildade na hora de nomear os cargos da Casa Civil e das Relações Institucionais. Deveria ter colocado pessoas mais fortes nestas pastas. Ninguém governo sozinho no Brasil. Muito menos com uma coalizão tão heterogênea.”

Perspectivas eleitorais para 2014

Diante da antecipação a campanha eleitoral pela presidente Dilma, Carlos Pereira acredita que seu governo e sua candidatura estão ficando cada vez mais reféns dos aliados. Esse quadro tem piorado diante das manifestações de junho e da queda avassaladora de sua popularidade em um intervalo de tempo tão curto. Para Pereira, será muito difícil para Dilma manter o apoio dos aliados  na corrida eleitoral que se aproxima.

“Deve-se esperar maiores dificuldades da presidente em manter a sua base unida e disciplinada, bem como maiores custos políticos e financeiros para manter os aliados em torno do seu projeto de reeleição”, diz ele. “Não deve ser surpresa a debandada de alguns aliados em busca de alternativas que possam se tornar eleitoralmente mais viáveis ou mesmo em busca de candidatura própria, como é o caso do PSB do governador de Pernambuco, Eduardo Campos”.

Por outro lado, Sérgio Praça avalia que, justamente, o maior trunfo atual de Dilma é o fato de ela estar no governo. “Acho difícil os partidos aliados abandonarem a presidenta neste ano, mesmo o Eduardo Campos está tendo dificuldades em convencer parlamentares a romperem com o governo. Mas no ano que vem, o cenário pode mudar”.

 

Anúncios


Categorias:Instituições

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: