Os impactos da vizinhança ideológica e da política econômica no desempenho partidário

Na tentativa de  aprofundar o entendimento sobre quais os principais fatores que  influenciam a escolha política do eleitor, o pesquisador do Departamento de Ciência Política da Texas A&M University, Guy Whitten, encabeça uma linha de pesquisa que propõe unir os princípios do “economic voting”, que considera os efeitos do desempenho econômico no resultado das urnas, com a literatura a respeito do “spatial voting”, baseada no impacto do posicionamento ideológico de um partido e sua proximidade com as convicções do eleitor.

“Uma das nossas grandes ambições com o trabalho é aproximar essas áreas de estudo. E descobrir como a distribuição espacial dos partidos na escala ideológica e os resultados econômicos afetam o desempenho eleitoral de um partido”, disse Whitten, durante seminário promovido pelo Cepesp.

A partir da união das duas abordagens, Whitten trabalha elaborou o termo “spatial contagion effects”, que trabalha com a  hipótese de que, quando os eleitores avaliam de modo negativo o desempenho do governo na esfera econômica, essa avaliação terá um impacto nas urnas não apenas para o partido governista, mas também para todas as demais legendas que estão próximas, do ponto de vista ideológico, deste partido. Vale notar que Whitten estuda casos de sistemas parlamentaristas, em que a premissa é que o partido do primeiro-ministro é amplamente conhecido pela população.

Em artigo elaborado em conjunto com Laron Williams, da University of Missouri, Whitten exemplifica sua tese com a análise de duas eleições na Holanda e Irlanda realizadas no início da década de 1980, momento em que a situação econômica de ambos os países era problemática e os índices de PIB per capita estavam em declínio.

Whitten - figura 1

Em ambos os casos analisados, os pesquisadores perceberam que o impacto eleitoral negativo afetou não apenas o partido do primeiro-ministro e, sim, todas as legendas mais próximas ideologicamente desse partido, tendo elas participado ou não da base governista.

No caso da eleição de 1981 na Irlanda, em que o Fianna Fait tinha mais da metade dos assentos no Congresso e era, portanto, o principal responsável pelas políticas econômicas do país, o  fracasso nas urnas foi ainda mais evidente. Além da derrota do próprio partido do primeiro-ministro, o partido liberal dos trabalhadores, ideologicamente próximo ao Fianna Fait, também sofreu um revés eleitoral, apesar de não ter sido integrado a equipe de governo.

O mesmo comportamento político se repetiu na Holanda em 1982, apesar de a distribuição de cargos entre os partidos ser mais equilibrada, sem que houvesse um responsável claro pela situação econômica decadente.

Whitten - figura 2

Uma das conclusões do artigo de Whitten e Williams Don’t Stand So Close to Me – Spatial Contagion Effects and Party Competition é justamente que a vizinhança ideológica com um partido visto pela população como o culpado pela estagnação pode acabar afundando legendas que não participaram política econômica fracassada.

Assim, Whitten sugere ser estratégico para um partido tentar descolar sua imagem o máximo possível do partido governista. Porém, essa migração ideológica é limitada uma vez que a reação do eleitorado pode também ser negativa caso um partido declaradamente de esquerda passe, de repente, para o outro lado do espectro ideológico.

“O importante deste trabalho inicial é perceber que os partidos não realizam suas opções ideológicas de maneira independente. Eles estão sempre trabalhando de maneira associada ao que preveem que os outros partidos vão fazer. É sempre uma opção estratégica e relativa ao movimento político das outras legendas”, explica Whitten.

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Categorias:Instituições

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