David Samuels: Identidade partidária no Brasil

Em seminário realizado pelo Cepesp em março, o professor da Universidade de Minnesota David Samuels discutiu os principais resultados obtidos em seu mais recente trabalho: “The Power of Partisanship in Brazil: Evidence from Survey Experiments”, realizado em parceria com o pesquisador da FGV-RJ César Zucco.

Samuels é um brasilianista dedicado ao estudo do sistema partidário do país há mais de 20 anos. Sua primeira visita ao Brasil foi em 1992, na categoria de estagiário do agora governador da Bahia Jacques Wagner. Desde os anos 1990, Samuels cultiva um interesse particular pelo PT e busca descobrir de que maneira a legenda está passando por transformações em sua imagem partidária desde a eleição do ex-presidente Lula em 2003. “Eu queria saber como a marca do PT influencia a cabeça do eleitor brasileiro e suas decisões políticas”, disse Samuels.

Para isso, Samuel e Zucco levantaram os dados de identidade partidária disponíveis no Datafolha. Com base na análise da série histórica de pesquisas Datafolha de 1989 até 2010, percebeu-se que os eleitores brasileiros não têm expressiva identificação ideológica com um partido específico. No Brasil, apenas 40 a 45% do eleitorado diz identificar-se com uma legenda, índice considerado baixo em comparação a outras democracias.

Samuels ressaltou a característica fragmentária da estrutura partidária no Brasil, composta de uma miríade que pequenos partidos que se misturam ideologicamente, e atribuiu parte desta indefinição ideológica ao caráter jovem da nossa democracia.

“Imagina-se que no Brasil a identidade partidária deve ser fraca por causa do grande número de partidos e da juventude destes partidos. O PT, por exemplo, tem apenas 30 anos e o PSDB 25. Em segundo lugar, a literatura sugere que as clivagens partidárias são geradas por profundas diferenças sociológicas, religiosas e étnicas numa população. Mas isso não existe no Brasil de forma intensa. Então, a pergunta que queríamos responder era: de onde pode surgir a identidade partidária no Brasil?”.

Os autores realizaram uma pesquisa com 3.286 mil usuários do Facebook para saber se os eleitores eram capazes de se identificar com as posições políticas dos três maiores partidos nacionais: PT, PSDB e PMDB. A pesquisa do Facebook foi realizada por meio da publicação de anúncios. O estímulo apresentado para responder às questões era a possibilidade de concorrer a um iPad 2. Em paralelo, foi também realizada uma pesquisa presencial com 1.221 pessoas.

As perguntas feitas para os usuários do Facebook tinham a ver com questões de política nacional e internacional, como a votação sobre o novo piso do salário mínimo, o protecionismo de produtos brasileiros, a exploração do pré-sal e a relação bilateral com a Venezuela.

Descobriu-se que há mais pessoas que se identificam como petistas do que tucanos dentro do universo dos que responderam às pesquisas. Além disso, notou-se que os petistas costumam apoiar as decisões de seu partido no Congresso em maior proporção do que os tucanos – mesmo quando essas decisões são ideologicamente contrárias ao que historicamente o partido defende. Como exemplo, os autores citam o debate sobre o aumento do salário mínimo no Brasil. Na ocasião, a bancada petista defendeu um reajuste menor de R$500 e os tucanos apoiaram o valor maior de R$550. Mesmo neste caso, os eleitores petistas demonstraram apoiar a atitude dos parlamentares de seu partido.

Percebeu-se ainda que, desde a década de 1990, o PMDB tem sistematicamente perdido eleitores que afirmam se identificarem com o seu programa. Segundo os autores, isso pode ser explicado uma vez que o PMDB opera de maneira eminentemente eleitoreira e costuma ter uma atitude mais amorfa e situacionista do que o PT ou o PSDB. “O PMDB não tem uma marca diante do eleitor”, resumiu o professor Samuels.

Em relação ao PSDB, os pesquisadores perceberam que, apesar do partido ter vencido duas eleições presidenciais entre 1995-2002, ele é atualmente inexpressivo na esfera federal e limitado a lideranças estaduais e regionais. “Hoje, o (PSDB) se baseia na popularidade pessoal desses líderes e demonstrada eficiência tecnocrática de governo, em vez de uma visão geral para o Brasil. O apelo do partido é concentrado entre os brasileiros relativamente educados e ricos, que tendem a considerar a PT como um partido de oportunistas inexperientes“.

Por outro lado, o PT, que acumulou experiência de 20 anos na oposição, foi capaz de estimular um maior ativismo de seus filiados, fortalecendo as bases ideológicas e políticas do “petismo”. O PT, segundo os autores, tem “constantemente procurado desenvolver e consolidar uma imagem partidária, reunindo marketing político com o desenvolvimento de uma estratégia organizacional que procura cultivar a conexão entre os indivíduos na sociedade civil atuantes no nível local”.

Samuels ressaltou que o ex-presidente Lula teve um grande papel para a expansão do PT ao levar o petismo para os eleitores com menos informação política. Segundo ele, o PT, enquanto partido, ainda tem um papel importante no comportamento do eleitor brasileiro. ” Nosso trabalho identificou um efeito da sigla do PT na cabeça do eleitor. Não é somente o lulismo, não é somente o efeito do governo.O petismo ainda tem um peso importante nas eleições brasileiras. “concluiu Samuels.

Leia o artigo na íntegra: The Power of Partisanship In Brazil

Assista ao seminário de David Samuels:

Parte 1:http://youtu.be/5gpOPgn5dC4

Parte 2: http://youtu.be/VdeXiOVjR6o

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Categorias:Eleições

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