Saul Cunow: Grande número de candidatos inibe eleitor de votar

Em eleições para presidente, prefeito e governador, em que apenas dois ou três candidatos estão na disputa, é comum que eleitores definam seu voto na base do “menos pior”. Nesses casos, a falta de um leque mais amplo de candidatos frusta os eleitores que não se sentem devidamente representados nas urnas. Por outro lado, em eleições legislativas, o desafio de escolher apenas um entre mais de mil candidatos para deputado estadual em São Paulo, por exemplo,  transforma a definição do voto em um processo exaustivo e mesmo intimidador.  Foi o que concluiu a pesquisa do pós-graduando da Universidade da Califórnia em San Diego, Saul Cunow, que buscou associar o alto número de candidatos com o índice de abstenção eleitoral. Em palestra concedida na FGV-SP, o cientista político americano, autor do estudo  Too Much Choice? Abstention Rates, Representation and the Number of Candidates, apresentou seus resultados. “Descobrimos que os eleitores desistem de escolher quando muitos candidatos entram na disputa”, explica Cunow.

“Nesse aspecto, aliás, o  Brasil e os Estados Unidos estão em extremos opostos”, continua ele. “Nos Estados Unidos, as eleições para Congresso quase sempre se resumem a dois candidatos por distrito eleitoral. No Brasil, no mínimo vai haver 60 para um estado pequeno como Rondônia até 1,1 mil para São Paulo. Com dois candidatos apenas, a probalidade de que o eleitor encontre alguém de quem ele goste é menor. Os americanos ficam frustrados e não aparecem para votar, por isso nós temos os piores índices de participação eleitoral de todas as democracias desenvolvidas. Numa eleição presidencial americana, apenas 50% dos eleitores registrados aparece nas urnas. Em eleições para Congresso o índice é ainda menor. Agora, se o eleitor tem mil candidatos para escolher, a probabilidade de que ele encontre um que o agrade é grande, mas o custo da escolha alto.  Nenhum dos sistemas é perfeito”.

Para sua pesquisa, Cunow analisou dados de entrevistas conduzidas com 2,4 mil pessoas em São Paulo, de junho e agosto de 2011. Os entrevistados precisavam escolher entre 2 a 12 candidatos, que foram apresentados por meio perfis com de nome, foto, biografia e posicionamento político. Cunow  percebeu que as taxas de abstenção aumetavam em quase 50% quando número de candidatos subia de 3 para 12.

Choice set size and abstention rates

“É difícil determinar exatamente o que está impedindo pessoas de fazer uma escolha. Uma possibilidade é que elas não querem investir seu tempo ou simplesmente não querem correr o risco de escolher um candidato ruim, então não optam por nenhum”. Um dos resultados mais surpreendentes para Cunow foi que a  afiliação partidária dos entrevistados não influenciou significativamente nos índices de abstenção. “Descobrimos que as pessoas que tinham familiaridade com os partidos ainda estavam propensas a anular o voto quando muitos candidatos entravam no páreo. No Brasil, não é comum votar por legenda, mesmo que isso possa atuar como um filtro e diminuir o ônus da escolha. Vemos esse mesmo comportamento nas relações de consumo. Quando vamos para um supermercado comprar uma escova de dente, há algumas marcas que reconhecemos, mas estar diante de 52 tipos de escovas de dente e saber que alguma deve ser perfeita para nós não torna a escolha mais fácil”.

O trabalho de Cunow mostrou ainda que as mulheres são menos propensas a se abster, enquanto idosos, ao contrário, se eximem da escolha com mais frequência. Diferentemente dos Estados Unidos, onde eleitores com maior nível educacional comparecem nas urnas para votar, no Brasil os eleitores com maior escolaridade têm maiores índices de votos brancos e nulos. “Podemos interpretar esse dado com o fato de que no Brasil as pessoas com mais educação sabem mais sobre política e estão mais desiludidas e insatisfeitas com os parlamentares”, sugere Cunow. Como a maior abstenção enfraquece a participação política, a pressão da opinião pública para que os parlamentares eleitos cumpram com suas promessas de campanha também diminui. Para reverter essa tendência e melhorar a eficiência do voto, o pesquisador americano sugere que partidos desenvolvam táticas de campanha mais inteligentes.”Nos anúncios de três segundos na TV, os candidatos só têm tempo de falar o nome e o número, e aí vemos que eles fazem de tudo para chamar a atenção; se fantasiam, dançam, gritam, tentam ser engraçados… Uma coisa que os partidos podem fazer é concentrar suas campanhas em algumas áreas de interesse e aproximar certos candidatos de nichos eleitorais específicos. Eu acho que os candidatos já fazem isso de forma natural em alguns lugares. Se um vereador quer ser eleito em São Paulo, por exemplo, ele tem que se concentrar em algumas comunidades específicas na cidade. Não é inteligente que ele atue em igrejas ou bairros onde outros dois ou três candidatos já se estabeleceram. Mas se a coordenação dos candidatos fosse verdadeiramente perfeita, o seu candidato iria achar você e não o contrário”.

Para saber mais sobre a pesquisa desenvolvida por Saul Cunow, confira o artigo Too Much Choice? Abstention Rates, Representation and the Number of Candidates

Para assistir a palestra de Cunow na íntegra:

Saul Cunow – parte 1

Saul Cunow – parte 2

Saul Cunow – parte 3

Saul Cunow – parte 4

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Categorias:Eleições

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